work in progress

Creative Commons License

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
Mostrando postagens com marcador Rua Silva Ramos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rua Silva Ramos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Beni, o anarquista

Não adianta. Ele não vai te obedecer. Não adianta chamar pelo nome, ele te ignora completamente, e corre para a terra, jogando areia para o alto, separando as pedrinhas para outro canto.

Beni tem três anos e só fala o que quer, com quem quer, uma língua lá dele. E desenha compulsivamente, a folha de papel, o chão, as paredes, suas pernas, suas mãos, seu rosto.

Na escola, já foram algumas vezes em que subiu em cima da mesa, colocou o pintinho pra fora e mijou, rindo, para delírio dos coleguinhas da creche, que sempre aplaudem, entusiasmados.

Quero ser que nem Beni quando crescer.

***

Voltei à Rua Silva Ramos, voltei de súbito, assim, do nada, voltei e o jardim amarelava de florzinhas e mangas-rosa caídas.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

globinho

Dia desses, fazendo passeio kids com duas amigas (exposição do Einstein para teens + McDonalds), espantei-me - ou elas se espantaram primeiro - com minha incapacidade de fazer um barquinho de papel.

- Você nunca teve infância?

Aí lembrei que tive, e que tinha meu avô, que me passava o Globinho aos domingos, e que um dia veio com linhas marcadas para se dobrar e se fazer chapéu de soldado. E que a dobra passava próxima ao Hagar. Não sei, lembro muito do Hagar, que eu não entendia muito. E que eu subi correndo as escadas pro terraço, cantando marcha soldado cabeça de papel...


As mãos lembraram-se de súbito de chapéus e barquinhos. Pena que as pernas ainda não acordaram para as árvores, mas quem sabe, ainda volto a subir nelas?

***

Fiquei muito feliz com essa notícia. Saber que aqueles que leio com tanta frequência, de quem posso até me dizer próxima, vão ocupar as mesmas páginas que me fizeram ler jornal. Ver isso acontecer, dessa geração tomar esse espaço, é lindo. Se não me engano, hoje há outro espaço infantil, o que me dá mais orgulho de saber que os quadrinhos que ocuparão o jornal são aqueles reconhecidamente adultos, antes mesmo de chegarem aos jornais. Pelo menos assim espero.

Parabéns fofo, Arnaldo e Lyra.
Um grande beijo pra Clarinha, minha amiguinha de jardim.

***

Pensando nisso é que entendi a sensação estranha que me deu quando primeiro li a novidade: acho que enfim me dou conta só agora de que cresci... 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

sessão de cartas da Marie Claire - ERRAMOS

Num lapso, escrevi cinco em vez de seis na legenda da foto da Rua Silva Ramos. Mamãe me liga às 8h da manhã pra me avisar.

- Você me acordou só por isso?

Ao despertar, já está lá o email:


from: Márcia Carneiro
Thu, Jan 14, 2010 at 08:02 AM
Re: Rua Silva Ramos

Maria!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! SEIS FILHOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Fernando trouxe de Manaus a placa!
Rua Silva Ramos também tem na Tijuca
Silva Ramos está na Academia Brasileira de Letras

from: MC
Thu, Jan 14, 2010 at 09:50 AM
Re:Re: Rua Silva Ramos

Eu não tenho nenhum compromisso com a verdade. A historiadora é você.


from: Márcia Carneiro
Thu, Jan 14, 2010 at 09:50 AM
Re:Re:Re: Rua Silva Ramos

Mas sabe contar...

from: MC
Thu, Jan 14, 2010 at 09:52 AM
Re:Re:Re:Re: Rua Silva Ramos

Já corrigi, mas não é verdade. Fiz letras, não números


from: Márcia Carneiro
Thu, Jan 14, 2010 at 09:53 AM
Re:Re:Re:Re:Re: Rua Silva Ramos

Mas fez o primário... E pode colocar o dedinho em cada pessoa da foto e contar: 1,2,3,4,5 eeeeeeeeeeeeeeeeeee 6!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Conto do Pato

Quem escreve é José Ricardo da Silva Ramos, o Zé Ricardo*.

Essa quem me contou foi o Pato, meu velho amigo de rua.

“Jorge Irizipela era o jogador terror dos campos de futebol várzeas do morro. Tinha apenas uma função quando atuava: aterrorizar todos os agentes desportivos. Alto, forte, costas largas, bigodes mexicanos e cara de mau, o Jorge era temido por todos pela sua exuberância corporal. O povo das redondezas dizia que Jorge sempre foi o sujeito mais respeitado no futebol do morro, tanto pelos adversários como pelos parceiros.

Sempre depois de ter cumprido uma longa jornada de trabalho carregando centenas de sacos de 50 kilos de farinha e fubá, o Jorge entrava em campo, mais bêbado do que uma gambá, e aí o jogo se moldava segundo o seu jeito de jogar. Ele mesmo dava a saída e conduzia a bola até o seu destino final: o gol. Os adversários ao seu entorno fingiam ser driblados, simulavam confrontos, davam na pinta uma certa oposição, mas ai daquele que tocasse no Jorge ou roubasse o seu precioso objeto que levaria até o gol: a bola. Se por acaso acontecesse tal tragédia, o coitado autor de tal ato, já tinha o seu destino traçado: cemitério ou hospital. O goleiro adversário também era muito solicitado pelo Jorge, pois cabia-lhe a tarefa de fazer toda a pose defensiva, pois o Jorge não gostava de fazer gol fácil.

Desse modo, o Jorge aproveitando-se do seu prestígio corporal mandava no jogo, e o morro como um todo arrumava-se de acordo com as leis que o Jorge estabelecia quando jogava. Encarando todo o público com o seu típico mau humor, estipulava o tempo, o número de jogadores e o placar dos jogos.

Um dia, um tal de Cláudio, um dos parentes do Cabrita apareceu no campo do morro. O garoto metido a jogar bem logo conseguiu uma vaga no time adversário da equipe do Jorge. Ele estreante no morro não sabia do contrato entre os jogadores quando o marombeiro trabalhador do Fubá Granfino estava presente. E, logo depois que o Jorge iniciou o jogo, o rapaz mascarado a jogador habilidoso, toma-lhe a bola dos seus pés, corre todo o terreno do time oponente e faz um gol e ainda sai tirando marra de Maradona. Notamos que, depois desse fato, o céu enegreceu-se, as nuvens surgiram pesadas anunciando uma tempestade, todo o cenário do morro aquietou-se e os seres vivos e até os mortos calaram-se diante de tal proeza, da extrema petulância do pobre rapaz. A galera presente abaixou as suas cabeças, colocou as mãos nas testas e começou a cochichar de orelha em orelha com a língua entre os dentes:

__ Temos um enterro amanhã, rapaziada. O velório de um colega que apenas pegou a preciosa bola do Jorge. Este rapaz não vai durar mais do que cinco minutos. Ele é louco! Ele está perdido! Quem vai anunciar a morte do garoto a sua família? Mais uma vítima do Jorge! Por que não avisaram ao menino que aqui o Jorge é a lei? Meu Deus, você viu o que ele fez?

O Jorge mesmo se encarregou de pegar a bola dentro do gol. Colocou-a debaixo do braço e a levou até o meio do campo. Sentimos o seu semblante alterado, meio perturbado pela audácia do jovem estreante. Todos se voltaram para a fala do Jorge quando fixou os seus olhos naquele que havia cometido tal barbaridade:

___ Você machucou o Jorge. compenetradamente disse o Jorge apontando para um dos seus pés descalço.

___ Que isso Jorge? Eu tire a bola legal! Respondeu o Cláudio.

___ Você machucou o Jorge. Isso não se faz. Calmamente reafirmou o Jorge.

___ Que isso Jorge? A galera viu. Eu tô jogando legal, Jorge. Retrucava Cláudio.

___ A rapaziada viu que você machucou o Jorge, e isso não se faz. Balançava a cabeça o Jorge, de um lado para o outro, contrariado com audácia do pobre rapaz.

A galera já se preparava, apreensiva com o socorro emergente do moço. Este, já alertado pela turma fugia do domínio territorial do Jorge no campo. O Jorge, por sua vez, continuou jogando sozinho a partida. A multidão do morro esperava ansiosamente o trágico desfecho fúnebre até que, após um gol do Jorge, o goleiro arremessa a bola na lateral direita para o Cláudio, quando surgiu rependinamente quem? no mesmo espaço do campo? Quem? O Jorge.

___ É agora! Previu a galera já impaciente...

E foi. O Jorge dá uma banda no Cláudio que o joga a mais de cinco metros de altura. Essa banda, que impressionou mais uma vez toda a platéia deu-lhe a oportunidade de rever o Jorge nos seus tempos de glória, quando ele divertia a galera com as suas brutalidades. O que dava o peso da graça ao jogo lá no morro. Sobre o que aconteceu com o Cláudio, o morro teve que se contentar apenas com o hospital.

___ O Jorge quando não mata pelo menos desinfeta. Esse não tira mais onda no morro. Disse um amigo nosso, o Frei de Barro, que, alegre, estava indo visitar o amigo Cláudio no hospital....”

*Professor de Educação Física da UFRRJ. Os jogos e a linguagem deles, assim como a comunhão linguística que eles proporcionam sempre fizeram parte de suas pasquisas, das quais participo desde pequena, como cobaia, redatora, leitora.

Rua Silva Ramos




Fiz a rubrica Rua Silva Ramos em homenagem ao quintal que ainda guarda minha infância, a casa da minha vó, dos meus pais, onde cresci. A rua, na verdade, era a Rua General Antonio Rodrigues ou Rua da Padaria Nota Dez, referência antiga, nem a padaria existe mais, do general sei menos. Mas Silva Ramos é o sobrenome de minha mãe e seus cinco irmãos, enfants terribles, adultos professores, pesquisadores e curiosos e que adoram contar histórias.

Fernando, o pior de todos (que fugiu a primeira vez de casa aos três anos), encontrou, uma vez, não lembro mais aonde, uma rua que se chamava Silva Ramos. Não lembro mais se encontrou primeiro a rua, ou a placa, ou fez a placa. Prefiro dizer que ele pegou, assim, uma placa, em uma rua Silva Ramos. E trouxe pra casa. A placa está lá, ainda, na entrada lateral da casa de meus avós. Rua Silva Ramos. O jardim da minha vó, é a rua Silva Ramos, o quintal, pra sempre enorme, infinito, será sempre pra gente uma rua larga, a Rua Silva Ramos. Nossa rua, de nossas histórias, de nossa infância. Também ao pé do muro (tantas vezes derrubado por carros sem freio) e as ruas que saem pelo portão, o morro do Menino de Deus, cujo pé dá na nossa calçada, e a cidade que continua em volta, São Gonçalo.

Foi portanto meu tio Zé quem deu a ideia de reunir nossas contações, a primeira história que ele envia segue, acima.


Foto: Em ambas, estão os seis filhos de Maria Gelsera da Silva Ramos e Antonio de Pádua Ramos, na mesma ordem, só que espelhada.

domingo, 27 de dezembro de 2009

contos de infância 1: o carrinho de três milhões

Zé tinha uns 4, Fernando uns 10.
O vizinho, numa idade próxima de ambos, tinha um carro com motor. Isso, um carrinho pra criança, mas ele entrava no carro, dava a partida e passava correndo pela rua (a mesma em que cresci, talvez com outro nome).

Os irmãos espreitavam o carrinho, querendo aquele objeto mágico ou enfiar a mão na cara daquele garoto metido a besta.

- Aquele carrinho deve custar uns três milhões.

Vrum, vrum, passava pela rua o carrinho branco e os meninos - as meninas também - babavam.

- Vem, disse Fernando, eu sei onde podemos conseguir três milhões!

Levou Zé, maravilhado, pro fundo do quintal, entraram dentro do galinheiro e, lá, Fernando entregou-lhe seu tesouro: três enormes grãos de milho. Zé, maravilhado, não se continha de felicidade. O resto, vocês já imaginam.

sábado, 26 de dezembro de 2009

meninos e meninas



Yayá e Beni, meus primos de um ano e poucos meses, cerca de mil fotos só no HD da minha vó. Quando eles chegam é uma festa barulhenta, nessa família que há muito tempo não via crianças.

Encontro Yayá uma ou duas vezes ao mês. Ela nos vê e diz papapa. É a senha, já conhecida da família: Viva la pa-pa-pa-ppa coool po-po-po-po-po-pomodoro... Ela vai direto pro escritório da bisa, mexe no teclado pedindo sua música favorita. No youtube, Rita Pavone, dezenove anos parecendo bem menos, vestida de menino, cantando que barriga vazia traz fome de luta. Apresentei pra Yayá e ela gostou. Depois, apresentei-lhe outras, a Rita muito agitada, e a Yayá dança, também. A avó dela lembra que quando Rita Pavone começou a fazer sucesso no Brasil, achavam que fosse homossexual. Assim pensava a falecida tia Matilde, nosso sinônimo de mãe super-protetora de três filhas, que olhava pra essa moda de calças compridas e cabelos curtos pra meninas com desconfiança. Escandalizou a Itália, sim, mas foi por casar com um homem já casado, quando divórcio inexistia por lá.

Yayá tem um ano e uns três meses e ganhou dois brinquedos e uns quatro vestidos de Natal de tios, vó, primos. Yayá é elegante, todos dizem, enquanto ela faz caretas pra câmera.

Faz calor, Yayá levanta o vestido. Todos correm pra ajeitar sua roupa. Não podemos brincar de tinta, porque suja a mocinha. O pai vem e leva meu brinquedo.
***
Casa de vó guarda sempre madeleines, e eu cá vejo ainda a mesa posta com feijão, farinha, pimenta e 51 para vovô e os amigos. Sentava-me lá, também.

O chão continua sujo de carambolas, abacates prematuros e flores vermelhas do flamboyant. Exploro as novidades acompanhada de Vaquinha, a cadela malhada, com quem não tenho tanta intimidade como tive com sua mãe, Vigilante Rodoviário. Quintal da vó era só árvore, cães e às vezes primos.

Yayá se agarra nas nossas pernas como fazíamos com os mais velhos.



Gi, a dinda de Yayá, tinha cabelos tão curtos quanto Rô, mas colocava toalhas de banho na cabeça e dizia ter cabelos longos. Ela subia na janela, Rô recitava poemas pra ela, chamando-a de Julieta, depois misturava as histórias e pedia que ela lhe jogasse suas tranças. Gi lhe atirava a toalha, ele virava pra nós, primos-público, sorria, dizia, instantâneo: "Perucas Lady, tá?".

Rô era o menino do meio entre duas mocinhas; moravam em Manaus com a mãe professora e o pai sacana e médico. Sacana, porque não era raro Rô chegar na escola, abrir a mochila e tirar dali bonecas, plantadas por seu pai. Não foi, então, à toa, que Rô brigou com os pais num dia em que acordou vestindo uma calcinha (não lembrava que ele mesmo, tendo feito xixi em sua cueca na madrugada, trocou sozinho de roupa e pegou a calcinha da irmã por engano).

Nós vivíamos sobre as árvores, disputando os melhores galhos. Papai me dizia que primeiro aprendi a subir nelas, depois a andar. Não sei até que idade eu andava apenas de calcinha pelo quintal, brincando com os cães e com as plantas. Lila preferia saias, e hoje me interrompe vez ou outra esse texto perguntando se a roupa lhe convém. Fê comia gongolos. Todas as três detestavam pentear os cabelos.

Eu era a prima mais velha dos que moravam aqui, tirando os primos de terceiro grau, com quem tentava aprender os mistérios das bolinhas de gude, das cafifas e da bola; abríamos riachos em meio à terra e à grama, construindo pequenas cidades. Depois nós todos construímos condomínios nas árvores.

Não há mais tantos galhos para Yayá e Beni, as árvores ficaram mais altas. Mas ainda haverá primos e cães.