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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

querido diário de bordo

Acordamos às 5, 6 (eu sempre prolongo mais cinco minutos ad infinitum), e minhas malas já estavam prontas para abandonar meu aconchegante lar em Brasília, a casa das irmãs Ludi & Micaíla.
Às 7h, Ludi e eu seguimos para o metrô. Mas, como qualquer cidade grande, a essa hora há pouco espaço para gente, quiçá malas (malas é exagero, duas mochilas), nos vagões pra quem vem de longe. 3 viagens perdidas, e voamos de volta para casa, recorrendo à Santa Micaíla Advogada Nossa Salve Salve das Causas Impossíveis, que transpôs toda Brasília – e o longo engarrafamento de Taguatinga. Em 40 minutos alcançamos o Plano Piloto – é isso? – e logo chegamos pontualmente à UNB, para encerrar essa jornada de três dias, a III Jornada de Estudos sobre o Romance Gráfico da universidade.
Santa Micaíla Advogada Nossa Salve Salve e três vezes três pulinhos para São Longuinho, que essa semana achou cartão, celular e vaga de estacionamento pra mim.

Além de último dia, era minha vez de participar das mesas redondas. Talvez não tinha sido por acaso toda essa problemática do caminho, do percurso. Falava de Encruzilhada, do Marcelo D'Salete. Falava da estética da margem, e falei um tanto das ruas. Para meu prazer, ao meu lado outros dois rapazes falavam de Mutarelli, de fragmentos, dos desesperos, e da vontade de restabelecer à letra seu papel de ícone, de desenhinho, mesmo (cf. Rafael Martins), e ainda falaram de Barthes. Já estava emotiva.

Depois, mediei os dois amigos Ludimila e Breno; ela sobre Lucille/Renée (Debeurme), ele sobre Jimmy Corrigan (Ware), e a gente se dando conta do que unia essas obras – o pai, a dor, a solidão – e agora penso que o dia de hoje começou todo assim, Brasília e suas retas, como lembrou Breno, dando a ordem dos discursos de poder, e esse encontro todo possibilitando a fuga às castrações, às melancolias: amizades, como lembrou a Ludi, em uma política por vir.

Tanta coisa essa semana me lembrando de cartografar minhas amizades, todos os portos em que posso confiar carinhos, psiquês. E já partia de um deles, da Brasília por quem me apaixonei, mais uma vez.

No almoço de despedida, as despedidas em que se pede uma volta, ainda revi a caríssima Andressa (com Ludi, formamos o trio anarconeon que um dia sambará na cara da sociedade, para usar a expressão da Andressa que tanto repetimos essa semana).

Fui embora pensando nos amigos que não consegui rever, nas conversas que não terminei com a Regina, com o Lima, com o Luiz, com o Gabriel, com o Ciro, com o Ricardo, o Guilherme, o Rafael, o  Val, com as meninas da Revista Piqui, com o Benjamin, com o Vinicius e a Carol, com quem mais? e todos os monitores empolgados, e em todas as coisas que ouvi. Foi bom pra mim.Peguei o avião num dia bonito, e depois de um dia cheio, ganhei de presente lugares vagos ao meu lado. Eu não devia te dizer, mas as pernas pro alto na cadeira ao lado, uma cerveja, e duas horas de pôr-do-sol que nunca acompanhei com tanto gosto, me deixaram feliz feito o diabo. Lembrei do que disse André Valente, respondendo em sua oficina a alguém sobre o que era proporção áurea, "quando deus te desenhou, quando deus desenhou o mundo, ele tava namorando".

Quase aplaudi, no final.

Agora, no aeroporto GRU ainda, cumpro a promessa feita em Recife à Ludi, de atualizar o blog (na verdade a promessa era de escrever todos os dias), enquanto aguardo a hora do voo para Buenos Aires. Novas aventuras amanhã?

ps: o dia teria sido perfeito se fritassem o polenguinho de provolone que servem no avião.





quarta-feira, 1 de agosto de 2012

das imagens

"Há imagens demais, mas nenhuma que me atinja" - Roland Barthes, em algum lugar da Câmara Clara
Ora, há quanto tempo, blog, que não te vejo. Rascunhei algumas vezes, mas o tempo, ah, o tempo... Claro, meu ego anda bastante massageado pelos likes e retuítes e esse blog nem era lido, tadinho. O que fazia ele na lista do Inagaki de blogs da semana, eu não sei. Isso estava tão parado...
A @meninxexcentric desse novo google analytics junto ao blog e, quando fui ver... Me vicio em leitores. Bem, é tempo de escrever. Como exercício, então, proponho as quartas-feiras. Prometo. Atualização semanal. Juro [beijando dedos cruzados].

O que mais tem provocado a minha escrita, ultimamente, tem sido as imagens recebidas pela alea das redes sociais. Como essa abaixo. Claro, havia visto a propaganda e não tinha conseguido formular um pensamento até ela ressurgir ali, propagando uma outra ideia.





Como comentei, no caso, para a timeline feicebuquiana:

Na segunda foto, poderia estar escrito assim: "Fui assassinada devido a uma política brutal que criminaliza o usuário, não incentiva o tratamento dos mesmos e ainda alimenta toda uma indústria do crime que se sustenta em sua ilegalidade e na falta de políticas públicas que deem acesso à saúde e educação, deixando sob o controle do tráfico boa parte da população pobre dos grandes centros urbanos."

Já a da Luana Piovani, "você não sabe que só brancos chegam à universidade?"



O engraçado é que tais imagens, aparentemente veiculando discursos contrários, ainda servem a uma mesma ideologia conservadora. 
Apesar de apoiar a descriminalização do usuário, precisamos ainda lutar para outras garantias, como a saúde dos usuários, a desmistificação das drogas, e a discussão realmente ampla em sociedade sobre efeitos tanto do tráfico quanto das potencialidades positivas e negativas que a liberalização do tráfico podem vir a trazer. E são discussões não apenas políticas, mas que devem envolver pesquisadores sérios e competentes, não pensadores de ocasiões, como nós, os leigos, que devemos ler bastante e tentar analisar o que há por detrás dessas imagens. 


quarta-feira, 28 de março de 2012

isotopias

Repórter entrevista o "pizzaiolo", que explica a importância de deixar a borda da pizza mais elevada: "Senão queima e vai ter que fazer outra pro cliente".

Por essa mínima palavra, abre-se todo um novo entendimento das relações de trabalho ali na cozinha da pizzaria. O pizzaiolo, ali, não é mais o cozinheiro que fazia de sua atividade uma verdadeira profissão, ofício que dá significância a um modo de vida, incluindo aí muito além do modo de preparação, mas o saber e o discurso do profissional.

O discurso advém do saber, que é adquirido ao longo do aprendizado da profissão. Há, portanto, profissões e ocupações. Com a fragmentação das relações de aprendizagem e de trabalho, há essa iminência do sujeito que trabalha sem, realmente, ter uma relação afetiva com sua ocupação. E aí se misturam todas as questões de fragilidade nas relações de trabalho, a necessidade de operadores de determinadas funções que precisam agir com rapidez para atender a novas demandas de mercado, patati, patatá.

No caso, o pizzaiolo foi treinado para as funções de pizzaiolo, mas ele ali não tem a autonomia daquele que sabe, cujo cuidado vai além das preocupações com o formato da borda e a temperatura do forno e uma entrega rápida ao cliente = um indivíduo cujas necessidades precisam ser atendidas com o temor constante do gerente/patrão questionar a sua habilidade para essa ocupação; e aí o prestador de serviço poderá sofrer sanções e, quem sabe, não tentar mudar de ocupação?

A preocupação do profissional é, antes de tudo, com seu ofício, não apenas com o consumidor de seu produto. Esse deslocamento de objetos de inquietude conotarão o desprazer com o trabalho. Afinal, são novas metas a serem cumpridas. No caso do pizzaiolo, sua meta não é apenas a massa e o recheio bem cuidados da pizza, mas atender a um número máximo de clientes com o mínimo possível. No ensino privado, o professor torna-se responsável, também, pelo aumento e a estabilidade do número de alunos, pelo sucesso deles no vestibular.

Sempre estranho quando, em meu trabalho, tratamos alunos como clientes. E estremeci ao ouvir o mesmo vocábulo expresso por alguém que deveria tratar a quem ele serve como freguês. Que, para o bom profissional, nem sempre tem razão.

domingo, 1 de janeiro de 2012

gli intonarumori

Não lembro mais que escritor ou jornalista ou quem quer que fosse comentou sobre seu espanto ao descobrir que havia, de certo modo, "escapado" ao 11 de setembro, mesmo vivendo em NY. Espantava-se de toda a comoção que não havia vivido, sendo sua desculpa a distância que mantinha dos aparelhos de comunicação. Mesmo sendo um autêntico novaiorquino, vivendo ali no décimo primeiro dia do setembro de 2001, não sentia a tragédia como os outros, as ruas lhe pareciam normais, assim como os que encontrava "fora" daquela realidade projetada pela tv.
É cada vez mais difícil escapar das comoções públicas com os meios tradicionais de informação. A comoção, aliás, torna-se um elemento de coesão, a tragédia comum une os povos (ao que Quintana dirá que os melhores amigos se conhece às quartas-feiras, fora de qualquer luto). A urgência de rumores se faz, portanto, pela manutenção de uma sociedade. Mortos a "canção popular", os rituais religiosos, assumem seu lugar a balbúrdia, o sussurro, o murmúrio. 
Seria mais interessante se tais vozes fossem aquelas ouvidas pelo nosso Conselheiro Aires, ou por Étienne, aquele rumor de onde surgirão vozes imperativas da mudança. Não, essas vozes maquinais, engenho humano, mas cada vez menos humanizantes. Um sonho futurista de Marinetti ou Russolo, apenas máquinas de fazer barulho (1)
... "a transformação da música em barulho (rumor) é um processo planetário que fez a humanidade entrar na fase histórica da brutalidade total. A brutalidade se manifesta primeiramente com a onipresente brutalidade acústica: os automóveis, a motocicleta, a guitarra elétrica, as britadeiras, os altofalantes, as sirenes. A onipresença visual não tardaria a vir."(2)
As onipresenças seriam, talvez, as falsas urgências de nosso tempo, que busca a cada momento a nova comoção que fará ressurgir um espírito nacional. Algo que faça sentir um pouco de emoção que não seja o tédio da rotina, um amor tranquilo, a melancolia.


Laerte, sobre a música.


***
É por isso que fujo dos fogos de artifício.



(1) Os Intonarumori, instrumentos pré-Pascoalinos (digo um precursor de Hermeto Pascoal) de Luigi Russolo, que imaginava um instrumento que cantasse a cidade, o futuro. 
(2) Milan Kundera, via sua personagem Sabina, em A Insustentável Leveza do Ser. Barulho, no texto, seria talvez burburinho (sugestão de B. Azevêdo), música de elevador, a música de fundo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

leões

Diz que a professorinha francesinha, lá nos confins da África Negra, repetia, de cor, a lição de História, em seu vestido de chita e giz à mão:

"Descendemos dos gauleses"i.

A gente não fica lá muito atrás com o mito da união estabelecida e estável de três povos que só se distinguiriam pelas cores diferentesii. Enquanto a francesinha missionária levava sua civilização franco-gaulesa para o estrangeiro como algo tão natural, a nossa aperta junto ao peito sua bíblia pedagógica e desbrava os territórios violentos das grandes cidades, diariamente.

Um leão por dia, elas matam; leões do tráfico, leões sem pais, leoas grávidas aos doze.

Bravas professorinhas. Elas salvarão o mundo da selvageria, com suas preces e orações subordinadas. 

Encontrei uma hoje, na faixa de gaza das relações acadêmicas. O tema era literatura contemporânea e novas mídias. O tema virou na curva da literatura infantil, pegou a via da leitura na escola, desceu para as diretrizes de compras de livros para as escolas e tropeçou no desânimo do fracasso escolar.

E ficou por ali naquela conversa de sempre: alunos são uns seres sem luz, que não querem nada.

– Você não quer aprender? Não quer buscar conhecimento? – cita ela a conversa com um menino.
– Eu, não, professora. Meu pai é pedreiro e ganha mais que você –  seu aluno lhe respondeu.
– Mas seu pai não tem férias, seu pai tem que trabalhar demais, seu pai tem uma vida triste e não pode ficar doente – replicou.

Enquanto a conversa não engatava para outros rumos, escorreguei na mais profunda indignação. Como pode uma autoridade escolar tomar esse papel tão a sério e se afirmar como superior àquele aluno, àquela família?

Um ou mais leões por dia, elas matam. Quantas almas já salvaram, as professorinhas?



Uma vez contestei um discurso ouvido por aí sobre o professor estar obsoleto. Com tanta tecnologia nova, aquele que não as domina está fadado a ser visto como ultrapassado por seus alunos. Discordei, posto que parecia que a culpa recaía sobre o professor. O tal esquecera que nossos professores não recebem incentivos para se atualizarem.

Mas o problema é mais embaixo. Ele tinha, de certa forma, razão. Não digo do ponto de vista das novas tecnologias. Não é apenas o salário que está defasado. Nós, professorinhas, estamos defasadas em relação ao quotidiano de nossos alunos e de suas linguagens. Defasadas por continuarmos a acreditar que nossa “cultura”, nosso “conhecimento”, é tábua de salvação de quem quer que seja.

Esse sistema educacional é anacrônico. Acreditar-se “educador” é acreditar-se um missionário de uma civilização em vias de extinção. É preciso, de fato, entender o processo educativo como uma missão religiosa, sim, mas de uma comunhão conjunta, em que o professor é apenas mais um ali. Não ser apenas aquele “que, de repente, aprende”, mas aquele que está sempre aberto e disposto a aceitar o olhar desse estrangeiro, que é sitematicamente obrigado a seguir ordens de alguém de uma “casta” superior e sagrada, que mata não sei quantos leões por dia e se alimenta de autocomiseração.

Faziam bem, alguns povos, que devoravam professorinhas.

***

outras rondando o mesmo tema: um dois três quatro

____________________________



i“Nos ancêtres, les Gaulois”. O primeiro engano seria já o uso do termo gaulês: eram diversos povos que partilhavam línguas do ramo celta; o segundo, gaulês era um termo utilizado pelo “inimigo”: Roma.
ii … que, somadas, deram outras cores, outros nomes de cor...






sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Rio, 25 de novembro de 2010


Proudhon dizia que em cada átomo há uma anarquia. A gente é que nem perceberia o quanto nossas moléculas se mexem. Não reparamos que a Terra está sobre um eixo torto e juramos que as coisas devem ser retas. A gente acha que as coisas devem ser feitas como foi estabelecido, sem se perguntar quem estabeleceu. 

***

Pai e mãe assaltados na porta de casa. Tudo bem, eles passam bem. Não é a matéria que fez falta, mas o "medo do impossível que ainda não veio".


Carros e relógios são incríveis máquinas de fazer medo, tudo parte desse esquema lindo que é a nossa sociedade de controle.


O medo do que está por vir bateu lá na casa dos meus pais, e é claro que me preocupo agora com eles, com a minha vó que já estava dormindo e nem soube ainda da história. 
Acho que já comentei que, antes de eu sair de lá, a gente não carregava chave de casa.


Mais do que choramingar, vale mais a pena racionalizar isso, pra entender como esse assalto faz parte de toda essa cadeia de crimes que vêm atingindo o Rio. Havia lido hoje cedo essa síntese do Vladimir Palmeira, o rapaz da passeata dos 100mil, no Vi o Mundo).


Tudo faz parte, tudo está conectado. E essa bola de neve que vem sugando a gente aí não é coisa nova...

***

Cachaça Cinema Clube de ontem apresentou uma sessão política. O primeiro e o último curtas, principalmente, narravam bem o que ocorre com o nosso tempo.

O último era a cobertura da posse de Sarney, em 1966, filmada por Glauber Rocha, a convite do eleito. O discurso do oligarca-mor brasileiro era acompanhado pelas imagens da miséria maranhense. Um intelectual chegava ao poder e, ora, o que mudou?
O primeiro, o vídeo Proibido parar, registrado na "mesma" Carioca em que o Conselheiro Aires/Machado de Assis esperava assistir uma revolução


Revoluções a germinar, não é o que está acontecendo agora. É sempre com sangue que se faz mundo novo, mas não é isso que se faz agora, não é isso que devemos pedir agora - e espero que não precisemos pedir sangue de ninguém. É preciso entender os terrorismos - físicos e midiáticos - pelos quais passamos. Violência gera violência, e se séculos de descaso com uma maioria sem voz gerou isso, é distribuindo dignidade que as coisas se ajustarão. 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

família, ê

B: Tenho que comprar areia pro gato mijar.... É um vida zero glamour.
mc: Que poético! Ter que comprar areia pro gato mijar is the new o leite das crianças, que já era uma releitura do pão nosso de cada dia.
B: A nova classe média falida não pode ter filhos, então lança um felino ou um cão, mas até isso tá meio foda de gerir.
mc: Por isso eu tenho uma planta.
B: Ótima pedida, mas também dá trabalho. O IDEAL é ter uma planta artificial.
mc: É verdade, as flores de plástico não morrem. A minha plantinha só não morreu graças a vizinhos que se compadeceram dela e a regam vez ou outra.
B: Afinal de contas, a época é tão monstruosamente autocentrada que cuidar de outra vida é uma perda de tempo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Alguém sabe como fazer pra manter uma conversa de vídeo sem ser por skype ou msn?

Resposta à pergunta de nossa amiga Tessi no facebook:



É
fácil. Começa estudando como advogado. Depois, talvez em uma década de progresso econômico, comece a fazer amizades com pessoas potentes no campo da política e do comércio. Aí começa sua própria atividade, por exemplo, no setor das construções. Assim, você poderá explorar suas  amizades para ações legais e não. Afinal business é business. Quando o dinheiro entrar, você poderá se meter no campo dos seguros, que hoje em dia é fonte de retorno certo. Enfim, para acrescentar sua popularidade, e porque você gosta de desafios, poderá comprar  um primeiro canal de televisão, mesmo pequeno. Faça como reduzir o espaço dedicado à cultura e acrescentar programas cômicos, pornográficos e de gossip. Depois, poderá comprar outro canal, e ainda outro.
Nesse ponto, chega a hora de aumentar a própria popularidade: é hora de comprar, por exemplo, um grande time de futebol. Milhões de pessoas vão te conhecer assim.
E quando seu nome será bastante difundido, é são esperar uma crise política séria, que ponha fim a toda a classe dirigencial. Você poderá explorar esse vazio de poder e fundar seu partido...
Depois, é fácil. Seu partido fica o partido da maioria, suas televisões ficam as maiores do país, seus amigos controlam as outras televisões...
Assim você pode manter uma conversa vídeo com todos os seus correligionários sem passar por skype ou MSN.


(resposta de DVD CRP, @Davidino)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Libertê, egalitê, fraternitê

Ontem assistimos a uma conferência sobre o laicismo francês. A historiadora e professora da Paris-Ouest Jocelyne Saint-Geours apresentou a cronologia, justamente, de como ocorreu a separação Estado e religião - leia-se igreja católica*, claro - e a atual preocupação francesa: a grande imigração de muçulmanos e sua resistência a algumas das regras de etiqueta.

A França de hoje compreende que, antes de tudo, seus cidadãos fazem parte da nação, antes de adorarem a qualquer deus que seja. Égalité. 


Esse princípio é o que determinou a interdição do porte de símbolos religiosos em sala de aula: todos devem ser iguais. Aliás, não há ensino religioso na escola, mas toda quarta-feira é livre para permitir aos pais de encaminhar seus filhos à fé que eles - os pais, diga-se de passagem - escolherem. E, como lembrou a professora, o porte de um símbolo religioso ostensivo feriria aquele princípio que diz que a minha liberdade termina na propriedade do outro, ops, onde começa a do outro. Liberté.

Assim, como exemplificou a professora, isso evitaria disputas entre alunos de religiões diferentes, reunindo todos sob as mesmas leis, língua, lógica nacionais. Fraternité.


No entanto, como sabemos muito bem, tirando o véu ainda se vê olhos, narizes, pele e etiqueta da roupa, os sapatos. Tirar o véu não esconde origem nem desnível social. Para algumas meninas, véu é até sinônimo de orgulho e lhe tiram para que elas sejam iguais às outras, que nunca serão iguais a elas.

Não faço de forma alguma defesa do véu, mas do direito de usá-lo. Muito menos do machismo desses françarabes. Já fui perseguida por uma rua inteira por dois meninotes, um me dizendo coisas horríveis - livrei-me deles encarando-os nos olhos e gritando bem alto para eles saírem de perto de mim: Chuis pas pute ! [não sou puta. Vale lembrar que era noite, reação automática e uma amiga tinha comentado como já afastara um homem no metrô, desse jeito]. Essas meninas portam também, muitas vezes, a cabeça baixa. Mas não é uma lei que vai mudar qualquer coisa. Elas continuarão vivendo nos quartiers sensibles, nas áreas problemáticas.

Uma proposta italiana foi a de organizar as turmas por quotas, mesclando de verdade os grupos. A diferença ainda existe, mas a convivência torna-se maior. Na França, a criança deve estudar na escola mais próxima de sua casa; sair de seu bairro, apenas no ensino médio, quando é possível escolher uma boa escola de acordo com seu boletim. Não há a possibilidade da existência de quotas: é proibido, por lei, realizar pesquisa em que se pergunte cor de pele ou origem étnica do indivíduo. Sabe-se, no entanto, que 1/4 dos franceses tem origem estrangeira.

Essa "minoria" não pode nem ser tratada de minoria, pois, na França, todos são iguais.

***

Enquanto isso, no nosso país laico, aprovou-se, enfim, o projeto do Ficha Limpa, ainda a ser votado no Senado.

A Malu deu a deixa no twitter: leia o que foi cortado nesse dia 12 de maio do decreto n. 7037, o tal que aprovou o Programa Nacional de Direitos Humanos (3).

(zut !, acabo de descobrir via google que ela é mulher do novo embaixador da França no Brasil. E eu a provoquei com uma pergunta que era mais ou menos o que escrevi acima... )


* Forço-me a escrever igreja em minúscula. Aprendi no catecismo e na escola que a católica deve ser sempre grande, assim como deus. Só há pouco tempo dei-me conta dessa grafia impregnada de teossofismos.





quarta-feira, 21 de abril de 2010

e deus parou a cidade

Desenvolvi desde cedo uma tolerância religiosa a prova de qualquer fanatismo. Até escondi meu ateísmo durante muito tempo, para não chocar ninguém. Nem gosto da palavra ateu, tão agressiva. Prefiro ser agnóstica. 
Gosto, aliás, de rituais, de conhecê-los, de observá-los. Tenho fé no broto de comunhão que germina em cada casa religiosa, isso de todos se conhecerem, se frequentarem, discutirem seu dia a dia. 

Aí vem essa multidão. A cidade parou, é verdade. De Copacabana até a Praça da Bandeira. Gente indo a pé, gente descendo dos ônibus, brigas no metrô. Nem de bicicleta dava pra passar (levei o dobro do tempo que costumo fazer). Em Botafogo, guardas tentavam retirar os participantes do Dia D (Dia da Decisão, organizado pela Igreja Universal do Reino de Deus) do meio da rua, enquanto carros e motos tentavam retomar o trânsito, que não era mais deles. Enquanto isso, pastores pediam aos grupos para se manterem no meio da rua. O objetivo era claramente parar o trânsito, mostrar a força deles. 

Era uma festa, é verdade. Os ônibus - estacionados da altura da Glória (ou além) até a São Clemente em Botafogo, vinham do Rio de Janeiro inteiro. Campos, São Gonçalo, Niterói, toda a Baixada. Cada bairro um ônibus, obreiros segurando placas do começo ao fim, para mostrar onde o grupo se encontraria, depois. Toda o Aterro foi tomado. Enfim, a periferia invadiu a cidade. Enfim, o povo tomou a rua.

Teria sido lindo, se não fosse uma orquestra tão desafinada com o que o próprio povo quer. Amanhã será dia de trabalho para grande parte dos que estavam ali. Vão continuar servindo de latas de sardinha em ônibus e trens, vão continuar não reclamando do salário, vão continuar se enganando que o mundo é naturalmente injusto e culpar o diabo nos cultos noturnos. 

Ficou mais do que provado que o povo consegue se mobilizar, sim. Pastorzinhos, em grande parte, não são os fdp como o seu Macedo. Os 100 mil ou mais que estavam ali são povo, e povo organizado para parar a cidade. Quando é que eles vão aprender a parar a rua e fazer a revolução?

terça-feira, 30 de março de 2010

Morar, num país tropical.

Ainda no clima do post anterior, fui assistir ao Fórum Urbano Mundial. Contei o que mais me impressionou lá na Zé Pereira.

quarta-feira, 10 de março de 2010

It's a wonderful life

Dear landlord,




Please don’t put a price on my soul.



My burden is heavy,
My dreams are beyond control.
(Bob Dylan)




It's a Wonderful lifeou o nosso A Felicidade Não se Compra, clássico de Natal de 1946, é daqueles filmes retomados em diversos outros, citados, parodiados. O anjo que vem do céu, a vida revista, o que aconteceria se você não existisse, o mal encarnado em um rico avarento e velho. Essa última referência já é mais antiga, a dickensoniana é a mais evidente. Coisa bem século XIX, Revolução Industrial com cidades crescendo e número de gente sem emprego idem. 


O velho Scrooge de Frank Capra se chama Henry Potter (Lionel Barrymore), grande proprietário, detém boa parte dos empreendimentos da pequena Bedford Falls. Lucra até com alugueis dos sujos cortiços onde mora a população pobre da cidade. Nosso herói, George Bailey, é interpretado pelo herói dos heróis-sem-superpoderes-mas-com-dignidade, James Stewart. Esse Hamlet é assombrado pelo fantasma da herança de seu pai, que o condena a tomar seu lugar na Bailey Buildind and Loan Association, fazendo-o se desfazer dos sonhos de partir da entediante cidadezinha. 

O mal encarnado, Potter, quer apenas dominar a cidade, e tenta fazer com que os Bailey desistam de seu negócio. A luta de George e família é pela casa própria para todos os cidadãos de Bedford Falls. E pelo emprego, também. Ao saber que um amigo queria abrir uma grande indústria de fabricação de plástico a partir da soja (!), ideia mesma do George (mas parece que já tinham pensado nisso, mas talvez só agora dê certo), sugere a esse amigo de empreendê-la em sua cidadezinha, onde o desemprego fazia muitas vítimas desde a Grande Depressão.

Bedford Falls ganha um conjunto habitacional com belas casinhas que todos pagarão em leves prestações; os Bailey não querem lucro, o lucro nojento do Potter. Esse, que incorpora o grande mal, o banqueiro, quer porque quer destruir a felicidade dos outros; obviamente, o que ele não pode comprar. Simples assim.

Não é tão simples assim no nosso mundo, evidentemente. Em um diálogo que me pareceu surreal, um funcionário de Potter lhe dizia: "Eles estão construindo belas casinhas no parque onde caçávamos", e sugeria que o chefe fizesse algo para impedi-los. Ali, havia uma divisão clara entre bem e mal. Mas ontem ouvi no rádio uma frase surreal assim. Em comentário ao fato da prefeitura do Rio estar gastando verbas públicas na recuperação de conjuntos habitacionais (projeto Conjunto Maravilha), o jornalista faz uma "reflexão", que joga para o público: "'Nós' pagamos condomínio para fazer reforma em 'nossos prédios". É, cara pálida, você provavelmente teme que roubem os impostos que "nós" pagamos para dar àqueles que não pagam nada. Também deve olhar com nojo as mulheres, crianças e velhos que moram nas calçadas do teu trabalho. Que "nós" são esses? Há muitos outros "nós" nessa cidade, e poucos se cruzam.


Os 600 moradores do Amarelinho, o tal conjunto a ser reformado, provavelmente, não pagavam condomínio. 


Quantos brasileiros podem fazê-lo? Dos 57 milhões de domicílios brasileiros, apenas 17% são alugados. No entanto, quem mora na rua não participa das estatísticas.


Hoje, um choque de ordem no Leme já demoliu duas casas irregulares. Para onde vão seus moradores? 
Se formos otimistas, eles encontrarão algum conjunto social na periferia, engrossando a massa que se locomove com dificuldade todas as manhãs nos ônibus, trens, metrô. 


E o que fazer dos espaços vazios do centro da cidade, dos prédios abandonados? Esperar que seu preço caia o suficiente para economizar numa bela reforma e, assim, transformar em bairro cool? 


Silvio Caccia Bava, no editorial do Le Monde Diplomatique Brasil desse mês, lembra que soluções para melhoria das cidades passam, justamente, pela erradicação da pobreza, que envolve moradias dignas para todos, acesso à mobilidade. E que há soluções bem possíveis, dependendo apenas da vontade política. Afinal, 13 trilhões foram empregados para salvar o sistema financeiro internacional, o que teria sido suficiente para uma revolução.
O mundo, irreversivelmente urbano, irreversivelmente humano, continua dependendo de poucos Potters. 


(Outro filme sobre o assunto é Hiato, sobre o qual tinha comentado aqui)


"Se morar é um direito, ocupar é dever"

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

paratodos, n. 8




ou: a (des)economia dos transportes públicos
um exercício econômicoulipiano, com soluções possíveis, mas implícitas.
(para M.S.)
Problema 1

Dado que é noite e Mariazinha (M) saiu sozinha da aula de economia, são-lhe apresentadas algumas possibilidades de trajetórias até sua casa:
o prédio do curso, na esquina da Rio Branco com a avenida Presidente Vargas, permitia que
1) M se deslocasse pela mesma calçada, à direita, onde esperaria o ônibus que chamaremos de A em frente ao CCBB (menos de 50m), que chamaremos de ponto de ônibus a;
2) atravessar a rua e pegar A num ponto b, à esquerda (cerca de 200 m), sendo que A faria a trajetória de a para b até chegar a d (o ponto em frente à sua casa). 1 e 2 tinham os mesmos custos de ônibus, lembrando que nos dois tratava-se de A (ou A', A'', qualquer variação de A, desde que A fosse de b,a até d). Considere-se que a e b representariam dois pontos sobre uma mesma reta, sendo ambos localizados na Avenida Presidente Vargas.

M predispunha-se a gastar R$ 2,20, tarifa regular dos ônibus que circulam na Zona Centro-Sul do Rio de Janeiro. Não cogitou, portanto, o metrô, apesar de estar com cartão carregado (o que geraria uma ilusória economia dos 2,20 líquidos em sua mão, e -2,80 no seu cartão pré-pago do metrô). Ir até o metrô representaria um deslocamento de cerca de 400 m e M não acredita que o conforto de um metropolitano valha a pena de um gasto maior de energia de suas pernas fatigadas, sendo o tempo considerado elemento desprezível nesse momento, em que todas as trajetórias operam fora do rush. Havia ainda a possibilidade de deslocar-se até o ponto c (trajetória c-d diferente de a,b-d), na Rio Branco, mais populosa de pessoas que esperavam o ônibus, mas era a mesma distância até o metrô.
O custo que M levou em conta foi um custo social: ao mesmo tempo em que um grupo atravessava a rua em direção de b, outro grupo preparava-se para dormir pelas calçadas próximas de a. M não queria admitir que fazia uma opção medrosa, mas lembrou da vez de um quase assalto ali mesmo. Um grupo X aproximava-se de M+2 amigos, mas um ônibus B surgiu na hora H no ponto a, sendo 2 os que viram X se aproximando de maneira suspeita e empurraram M para B (sendo B diferente de A e M+2 com apenas dinheiro para 1 ônibus, os 3 pularam a roleta, o que até hoje é lembrado com sorriso aventureiro por todos os 3).

Mesmo que X não tivesse trajetória até M+2 naquele tempo, e mesmo que as n pessoas que dormem pela Vargas e Rio Branco fossem diferente de X, M segue o grupo que atravessa a Rio Branco até b, por precaução, por preconceito. De qualquer forma, chovia, e M tinha uma demanda inflexível por um ônibus e segurança, tendo aceitado o primeiro que apareceu, mesmo sendo esse a 2,50 e com a climatização exagerada a essa hora H' da noite com a chuva etc.

Problema 2

Considerando que ir e vir são demandas praticamente essenciais e direitos adquiridos, todos os meios de transporte das mais diversas zonas no interior do município do Rio de Janeiro e de sua área metropolitana podem ser tratados como bens necessários, vide a malha urbana que necessita de reformas devido ao inchaço do uso desses transportes. Apesar desses bens, públicos, pertencerem a firmas privadas, provavelmente pelo objetivo tácito de quebra do monopólio estatal sobre a gestão dos transportes urbanos, cada fluxo entre essas zonas é gerido por determinados grupos monopolistas (excluindo-se de nossas considerações os transportes de uso particular, um desvio da regra monopolista que, na verdade, a suplementa, mas isso é outra conta).

Se M precisa ir de d a SG (sua cidade natal), depende unicamente de C, ônibus da empresa C, que domina esse mercado RJ-SG.
Houve um tempo em que, sendo SG-d seu trajeto habitual e o valor alto desse percurso sendo às vezes superior ao seu salário de professora do Estado, a solução para essa situação é o que a economia chamaria de queda da demanda. M matava muitas aulas quando precisava apenas estudar no Rio - a educação, afinal, torna-se uma demanda elástica quando seus custos aumentam.

O transporte alternativo é praticamente inexistente no fator preço, não havendo uma disputa de mercado que envolva esse fator, ou seja, alternativas. A briga pela demanda não apresenta vantagens economicamente verificáveis para o consumidor obrigado a percorrer o mesmo trajeto, nem o tempo é um fator relevante. Evidentemente, com emprego no Rio, M preferiu reduzir o tempo gastos no transporte e seu valor, fixando-se na selvagem cidade grande, transferindo, assim, seus gastos de transporte para o mercado imobiliário.

O que ocorre, de fato, é que o mercado de transportes, sem controle ostensivo do governo, tornou-se um mercado monopolista para a grande maioria da população. Quem não pode pagar ônibus, peso morto para os cofres dessas empresas, recorre a outras alternativas, ou melhor, a possibilidades, dependendo da proximidade. Bicicletas ou caminhadas, enquanto para alguns torna-se luxo relacionado a bem estar, para outros é o único meio de transporte. Para outros, cuja trajetória não é simplesmente a-d, resta o não-ir, ou o ir-e-ficar-por-lá, seja-onde-der.

(Estamos excluindo a deseconomia que a poluição e o estresse dos transportes a motor produzem no meio urbano, apenas levando em conta a necessidade de se deslocar quotidianamente para trabalho/educação)

Desta forma, pode-se retomar o exemplo das n pessoas que moram na rua, sabendo-se que grande parte trabalha nessa mesma área = os excluídos dos transportes urbanos.

Lembrando que o trajeto SG-RJ-SG custa em média 12 reais (se você pega apenas 2 ônibus ), analisaremos nos próximos capítulos como ainda não acreditamos que, finalmente, haverá um bilhete único ligando zona metropolitana e a cidade do Rio, com valor inferior a 10 reais.


Foto: adesivo trazido da França por uma tia, há uns dez anos atrás: zero euro, zero fraude, gratuidade dos transportes.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Borrasca!


Aquela história: nada impede o progresso. O engenheiro chega na cidade e prova sua esperteza, negociando malandramente com os pescadores.

O homem do petróleo paga a bebida no bar, celebra as moças, aluga o barco e o pescador e explode o fundo do mar. Os pescadores de camarão da Louisiana se apavoram: acabarão com o pouco do que eles ainda conseguem tirar do mar.

Em vão chamam a lei: "o petróleo também é um recurso natural", retruca o homem do petróleo. Nada impede Steve Martin, o personagem de James Stewart em Borrasca! (Thunder bay, 1953), de perfurar o mar, alcançando o sonho de 2500 m (tecnologia realmente impressionante numa época em que 100 m era o limite, a Petrobras bateu o recorde de 174 m em 1974, sendo o recorde atual de 2777 m em 2007).

Com muita teimosia, ele consegue o petróleo, a amizade dos pescadores, a mocinha, os camarões. Porque, afinal, o petróleo só trouxe riqueza para todos.

***

Final de 2009, em Arraial do Cabo: um verdadeiro engarrafamento de bicicletas, na porta da escola municipal, onde a cidade se reuniu durante dois dias. Pescadores lá, perdendo peixes, formaram dezoito grupos de discussões, debatendo suas riquezas. Numa região cobiçada pelo petróleo e rica na pesca, a Petrobras financia o projeto Arraial Sustentável, mas quem debate e levanta as ideias são os pescadores. Dos dezoito, nasceu um décimo nono grupo, que redigiu um ofício pedindo a volta da indenização paga ao pescador durante os períodos de pesca proibida. O sistema foi interrompido há dois anos em Arraial, devido a esquemas de corrupção que desviavam a verba. O próprio representante do Ministério da Pesca, presente no local, encarregou-se de entregar o ofício.

Eles estavam ali protegendo seu trabalho, ameaçado pela pesca industrial, pela poluição, pelo turismo, pela extração de petróleo.

Aqui, o coletivo é quem vem negociar. E esperamos que se consiga, em breve e de fato, construir a sustentabilidade esperada. Cooperação, co-gerenciamento, trabalho horizontal, deixam aos poucoss de ser utopia naquelas paragens.

Foto: Pescadores, pesquisadores (estudantes de pós-graduação e coordenadores do projeto Arraial Sustentável) navegam por Arraial, na elaboração do mapa da costa. O resultado foi a construção de uma maquete interativa sobre a geografia e economia local, utilizada pelas escolas e para pesquisas.

***

Já escreveram por aí, claro, que Lula, o filho do Brasil é mais um filme no estilo Dois filhos de Francisco, o selfmade cabra. Nem preciso comentar o senso comum que ainda confunde clichê com sabedoria popular, materializada na mãe do filho do país.

Mas o que mais me enerva é a desmoralização do discurso político. Todo "grande herói" vira um pateta apaixonado. Não aguentei ver Olga até o final com o Prestes com cara de babaca. E o Lula não fica atrás, é só um cara legal que faz as coisas com teimosia, sem entender muito bem as coisas?

Novelas só banalizam a luta.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Revanchismo cultural

Até que não demorou muito pra que o assunto voltasse à moda. Agora, questiona-se se quadrinhos - ou revistas - é cultura.
Dimenstein
teve pressa demais em reclamar gasto supostamente inútil com a etiqueta de cultura. Atropelou as mídias de informação, os quadrinhos e a própria cultura. Não vou aqui me estender sobre a noção de cultura, peço aos amiguinhos que leiam as primeiras páginas da Dialética da colonização, do Alfredo Bosi. Aliás, essa ideia de hierarquia cultural é coisa de quem ainda tem complexo de colonizado. E de quem acredita numa missão civilizatória da cultura oficial.
Como educadora, entendo que a valorização da leitura passa pela valorização do que é palpável por aquele que lê. Dessa forma, não se obriga ninguém a gostar de ler, o importante é valorizar que se leia, seja o que quer que seja lido.
Afinal, se o rapazinho consegue, finalmente, comprar sua Playboy da Fernanda Young, vai acabar descobrindo que é muito melhor ler o que rodeia a pelada - incluindo aí os quadrinhos.
Esse mimimi sobre o que é ou não cultura envolve uma ideia nostálgica da cultura burguesa dos 900, que, meu caro, não volta mais. Precisamos, sim, valorizar nossas referências, mas temos um problema crônico de analfabetismo funcional. Pedagogicamente falando, a leitura de informação é um caminho para o incentivo à leitura, sim.
Outra leitura necessária: Paulo Freire. Não é à toa que ele é mundialmente reconhecido. Freire partiu justamente da noção de cultura X natureza para educar. É preciso entender o que faz sentido para o educando, e assim aproximá-lo do objeto de ensino.
Dimenstein denota um desconhecimento de pedagogia, da cultura, do ato de leitura (post antigo sobre leitura aqui, sobre semiologia ali).

Sobre quadrinhos, publico agora um texto apresentado ano passado, mas talvez importante para quem estuda quadrinhos ou arte em geral.

sábado, 28 de novembro de 2009

uma comenda!

Na última semana, dois eventos no Rio de Janeiro chamaram-me a atenção. Sobre o primeiro, que discutiu a democratização da comunicação e da cultura no Brasil, escrevi este artigo aqui, num exercício de relatar tintim por tintim toda o debate.

O segundo, sobre o qual eu soube primeiramente pelo fofo do Dahmer, posteriormente via twitter do Ministério da Cultura, há, para mim, uma relação muito próxima do que os especialistas do primeiro evento debatiam.

Quando, há duas semanas mais ou menos, soube que Laerte viria ao Rio para receber a ordem do mérito da cultura, corri pelos jornais à procura de alguma notícia. Na véspera, até, pesquisei e nada encontrei. O twitter do MinC sinalizou, então, o que ocorria. Quarenta homenageados. Quarenta artistas das mais diversas mídias e públicos, homenageados no Rio de Janeiro. Não apenas brasileiros. Agualusa, Mia Couto, Boaventura Sousa Santos, Manoel de Oliveira são os lusófonos que conheço.
Carmem Miranda, Raul Seixas e Bispo do Rosário entre os homenageados in memoriam.
Zeca Pagodinho, Gerson King Combo, Ângela Maria, Fernanda Abreu e José Miguel Wisnik, Deborah Colker...
Tantos, tantos.
A abrangência da lista denota muito bem a política democrática do MinC, que, como foi lembrado no evento no BNDES, já começou, mesmo que de forma tímida, a quebrar a centralização cultural no eixo sul com a distribuição de pontos de cultura pelo Brasil. Na quarta-feira, a ativista Oona Castro, do Intervozes e do Overmundo, apresentou um mapa com essa distribuição. Mesmo com muita falta, ainda, pelo Centro-Oeste e extremo norte (se bem que exatamente na chamada "Amazônia vazia"), essa política teria como objetivo de dar meios da própria população criar o seu "conteúdo".
Afinal, o conteúdo cultural brasileiro de grande acesso, tem sido sistematicamente filtrado pelos canais de acesso - leia-se saqueados, adaptados, banalizados, monetizados pela Globo e seus colegas de nicho.
Alguém me diga, por favor, como as tevês apresentaram a entrega das medalhas, título esse tão importante. Nem sabia que ele acontecia todos os anos, nada, nada... Como não tenho tevê, corro olhos pelos jornais online, e esses citam apenas a presença das "celebridades", Dilma lá e Lula também, quem vaiou, quem aplaudiu, quem não ousou comentar. Nada sobre o caráter simbólico dessa premiação, nada sobre o porquê dessa lista ser tão heterogênea.
Porque, se eu me lembro bem, pra muita gente cultura ainda é erudição, e os homenageados, em toda a sua genialidade, estão, em grande parte, recolhidos no gueto das artes bastardas e populares.
Lembro quando fingia aprender música no Villa Lobos e algum professor fez o elogio da erudição, que é arte técnica, diferente da arte que qualquer um poderia fazer. Claro, a técnica é algo a ser adquirido, é necessária, e não me desfaço da erudição (logo eu, uma "intelectual"? - leia-se a eterna nerd) mas ninguém pode negar que esses artistas não sejam dotados de técnica, mesmo fazendo a arte popular ou bastarda (obs.: o corpo docente, pelo menos quase todos com quem estudei, tinham uma visão menos preconceituosa do popular).
Essa ordem valoriza justamente a arte em geral em seu caráter amplo; esses artistas, nomeados cavaleiros da cultura, são oficialmente declarados nosso patrimônio (não imaterial, como tanto se falou no tal evento do BNDES, porque a gente também sua e se cansa fazendo arte; dizer que é imaterial desmerece de todo o trabalho técnico e artístico).
Um grande viva a todos os homenageados; ninguém lhes tira esse mérito.

Aliás, concordo com o que um fã comentou no blog do Laerte:

Eu que sei lá dessa coisa de medalha até passei a simpatizar com essa agora que tu recebeu ela. Tipo, contigo recebendo ela, quem sai ganhando mais é a medalha, pois na real é tu que agrega valor a coisa, não o contrário. Parabéns anyways

A medalha já era uma instituição. Medalhas são sempre oficializações. O mais importante aí, repito, não é a medalha, mas a valorização, o relevo (mise en valeur) desses que já são nosso ouro antes de qualquer formalidade. É uma indicação que "os caras lá de cima" sabem que esses são nossa reserva de qualidade e o que isso pode gerar é um incentivo à produção cultural dos mais diversos setores, sem hierarquias culturais.

Os pés e os passos
Nas ruas agitadas de fim de tarde
Dizem tudo o que há a saber sobre a cidade:
Bastaria que os políticos e cientistas sociais
Trabalhassem no chão
(Boaventura Sousa Santos)