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domingo, 29 de julho de 2007

Música

Alice observava curiosa os móveis antigos, os quadros de outras épocas a recobrir todo o quarto. Sentia-se reportada a outra era. Concentrava-se nos cantos do quarto tentando dormir. Suas pálpebras se fechavam enquanto ela se sentia ninada por uma música que vinha de sua cabeça. De repente, imaginou que aquela música estava sendo murmurada por algum piano... Não, não era imaginação, alguém tocava, realmente, num piano... Mas onde?

Olhou em volta. Deveria vir de algum cômodo adjacente. Os ouvidos hipnotizados levaram-na até um canto. Sentia-se uma criança de Hemlim. Assustou-se ao cruzar os olhos com outros igualmente curiosos e brilhantes refletindo a luz que escapava às barreiras da janela. Era sua imagem no espelho de um grande toucador. Procurou o interruptor do quarto. Continuava escuro. Riu, pensando que talvez estivesse mesmo em outro tempo. Tateou pelas paredes até encontrar a janela. A lua sorria prata. Afastou o pesado móvel da parede. Seus braços finos quase que quebraram, mas ela não desistia de ouvir mais de perto aquele som.

Gotas de suor caíram do seu rosto. Encostou o rosto na parede. Ela não acreditava: uma luz suave surgindo dela. Uma fresta. Então deu-se conta: eram os recortes de uma pequena porta, na altura do seu ombro.

Se abaixou excitada com a descoberta e olhou pela fechadura. Um homem sentado ao piano. Um castiçal com umas dez ou doze velas, em cima do piano. Mais nada. Ele tocava com os olhos fechados, sentindo cada tecla como se fossem pérolas. Ou pele feminina. Sentiu algo melancólico no jeito como ele se entregava àquelas teclas. Como se fosse seu último dia na terra. Fechou os olhos também. Sentiu um perfume sedutor vindo de lá.

Forçou um pouco a porta. Em vão. Sentou-se já um pouco cansada no assoalho. Repousou as mãos no solo e ouviu a música silenciar. Passos. Ele se aproximava, e algo reluzia em sua mão.

Delicadamente, ele posicionou a chave e girou. Ela se encolheu no susto, então sentiu que ele se afastava, sentando-se novamente ao piano, recomeçando. Não resistiu e forçou a porta. Aberta, ela trouxe o som alto e definido. Inspirou profundamente para sentir aquele perfume, também mais forte. Deliciou-se com o azul dali, um imenso salão vazio, só com alguns quadros, o piano, e aquele homem solitário.

Ele não percebeu que ela já entrava. Só quando ouviu os passos secos se aproximando é que se virou, extasiado com a presença dela, parando alguns instantes para contemplá-la. Ela colocou o dedo em frente aos lábios pedindo silêncio e fez sinal de que continuasse. Ele continuou mudo, esperando o que ela ia fazer. Alice olhou para os lados. Não havia mesmo ninguém. Só a lua continuava a sorrir, os espiando pelas frestas das pesadas cortinas semi-serradas de uma das sacadas do salão.

Sentou-se ao lado dele, tremendo de frio e um pouco de medo. Os dois se olharam, esperando o que dizer. Silêncio. Ele voltou a fechar os olhos. Ela soprou todas as velas. Dedos nervosos, deslizando no piano. Os dois juntos. Aquela música. A vibração crescente das cordas do piano. E a lua...

Um comentário:

M.S. disse...

pianistas têm mãos leves e nunca me despertaram grande paixão...mas a moça fez mto bem em apagar as velas.