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quarta-feira, 12 de março de 2008

voyeurs de ônibus

tem pequenamorte nova na rede.
vai aqui o trecho do que publiquei na edição #8, sobre um dos meus fotógrafos preferidos, o linares dos cadernos brancos (veja essa página-painel das belas fotos da adriana nolasco, eduardo amaro, andré dahmer, otávio schiper, entre outros!)

Porque, seu moço, esses dias não estão pra flanerias. As coisas comendo o
tempo, o tempo comendo as coisas e, pelas janelas, vou consumindo os pedaços dos
outros que alcanço, longe. Assim, as frases desfeitas pelos muros e a doce graça
de plantas e bichos que descivilizavam a avenida arrebataram-me.
Nas fotos
do Rodrigo Linares reencontrei meu assombro com a rua. Não apenas um ângulo
admirado da paisagem, de cores, de formas. Sim, em suas fotografias, há certa
urgência para cores. Mas também há algo apontando o inesperado que se apresenta
ali, na frente.
Árvores rasgando a calçada. Uma folhinha que suja de cor o
asfalto. A flor que perfura o muro, drummondiana. Asas de metal que se abrem à
frente dos carros. E as aranhas que teceram uma abóbada no poste. Cores que, um
dia, nos salvarão dos cinzas. O olho desse fotógrafo também me pareceu ter certo
gosto pelas coisas que cortam o sentido da cidade. Cortam o sentido de cidade.
O que não é mais.
Rodrigo Linares fotografa casas e ruas em
desconstruções, aguardando essa salvadora primavera.
E as letrarias. Grafia
estrangeira persistindo em metal; palavras de ordem anti-urbe; letras apagadas
de um papel molhado; letreiros desbotados e letreiros ausentes; recados em
liquid paper sobre o portão e coloridos no banquinho da pracinha; rabiscos no
muro; desenhos na calçada; placas alteradas; placa que ele mesmo alterou: pARe.
Na verdade, o torto da letra, aquelas que não servem mais para o que eram. Letra
morta. E qualquer letra que apareça a perturbar a imagem pura-imagem. Mas o
branco escandalosamente vazio do outdoor (a ser preenchido, talvez, mallarmaico,
pela constelação de luzes acesas ao longe, à noite).
Porque lhe interessa o
desvio dos sentidos, o que não se con-forma. No seu trabalho com os papéis,
altera as letras de jornal, dando asas, por exemplo, às letras a.
A lente do
Linares busca retratar o combate contra os sintagmas da rua. A anarquia que se
instaura a passos de formiga, silenciosa. Cores e letras que vêm para rejeitar
“o tédio, o nojo, o ódio”.
Não é a poesia esse torto da linguagem?

Um comentário:

anti-herói carioca disse...

Rejeita a ti mesmo, cospe no espelho
depois fita bem nos fundos olhos dessa cara assustada,
lava o rosto, deita o olhar.

Apaga a luz antes de sair.