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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

mourning song for a little dog

King-Momento

O único momento que cheira
É o destino

A concepção canina do tempo
Não permite que os anos
Abram crateras quando caem

Não tenho outra ambição na vida
Que ser afagado



quando eu era pequena, minha vó dizia que, pra cada bicho, tinha céu. tentava imaginar o céu de uma formiga ou dos besouros. me interessava por besouros e sempre temi as formigas. os cães estavam sempre por perto no nosso quintal.

aos dez anos, no catecismo, me ensinaram que bichos nem alma tinham. mas nunca acreditei em muita coisa do que me diziam...

muitos -ismos depois, eu, já rezando o credo dos agnósticos e professando minha fé no texto, ouvi Derrida falar sobre os animots, em pessoa, na Maison de France. era 2004. ele viria a falecer poucos meses depois.

olhando minhas notas rabiscadas em um caderninho azul, não acho aqui as palavras que me impressionaram sobre isso, naquele dia. ele falara, principalmente, sobre a questão do luto, dos impossíveis... a questão do "inconsciente dos animais" foi melhor debatida alguns dias depois, por outrem. ele havia rebatido a idéia de Lacan de que os animais não teriam insconsciente. "Como o animal pode ser neurótico sem inconsciente?", perguntava ele, que amava seus gatos e os sepultava à maneira judaica.

lembro-me claramente de tê-lo ouvido falar sobre bichos nessa semana e me senti aliviada. havia chegado atrasada por estar cuidando de minha irmã canina - Sarabi (Bi, Bibi, Bibileca...). a vira-lata, que nunca recebera um tratamento especial, teve um problema sério de saúde dias antes, foi operada. e eu, que sempre gostei de bichos sem doar-me, comecei a cuidar mais dela, passando noites ao seu lado.

e, finalmente, eu assistia alguém que eu admirava muito tomar a defesa da anima dos bichos.

não sei explicar agora essas teorias. e nem preciso citar aqui os inúmeros benefícios de conviver com bichos. hoje, queria só falar da minha Bibi.

toda minha família a tratava como família. era minha irmã, não era minha.
nos últimos 14 anos, entrei e saí de escolas e grupos. por mais da metade de minha vida, lá estava ela, sempre na porta de casa quando eu chegava. assim, Sarabi adquiriu minhas manias e minhas neuroses, e de toda a família. sonhava com nossos diálogos. brincar com ela sempre foi minha terapia. como sempre gostei mais de ouvir os outros, não falar, quando precisava, era para ela que eu dizia os segredos. era ela quem me domesticava, amansava minha avidez com os seus olhos de cão, que me diziam: para que tanta euforia?

ela era talvez como todos os cães, mas nunca é assim, tão igual. inútil recriar para quem não perdeu a imagem de quem sentimos falta...

no mesmo 2004, ouvi Derrida falar do luto e começava a trabalhar o meu mestrado, sobre esse tema. Freud dizia que, pelo trabalho do luto, interiorizamos o perdido em nós. Derrida demonstrava que essa interiorização é sempre frustrada. é um mundo que se perde (Die Welt ist fort - escrevera Celan); impossível reduzir o outro, um mundo totalmente outro, dentro de nós. e essa sensação de perda, de frustração, compõe também a nossa [falta de palavras] alma [?] - o que somos. as ausências e os outros - que amamos - fazem parte da gente.

sonhei com ela nos últimos dias. tinha tempo que não sonhava com ela. e, engraçado que eu, tão materialista, me peguei pensando que ela poderia ter ido pro céu dos cães. conversamos sobre a dor que ela sentia, também. ela voltava a comer, e brincávamos como duas meninas - porque eu sempre era menina quando estávamos juntas.
tendo ou não céu, almas, não importa tanto. o fato é que tenho muito de Bi, desde que me peguei gostando dela. e, agora, sinto-a enorme, mesmo que incompleta, em mim. meu inconsciente será sempre boa parte canino e, se céu houvesse, preferiria merecer o dos cães: "Se os humanos ladrassem/ Seriam mais humanos".


A liberdade canina é diferente
Deixa-nos alguma liberdade

Sentir-se perdido na rua é um absurdo
Eu quando não sei para onde vou
É porque não quero saber

Ser cão é ter alternativas


Todas as citações são de King, o cão do cão Boaventura de Sousa Santos

5 comentários:

Pablo Carranza disse...

Meus pesames....marilia tava me contando como ela tava...fico triste...eu tb sou fã dos cachorros...mto bom seu texto.

Márcia disse...

Maria, ela era mesmo nós. De nós, nos protegia. Nos protegia de tudo e de todos. Como seremos agora sem Bibi?
Incompletos...

Marília disse...

o ruim é pensar que acabou sarabi, mesmo que a tenha em mente com lembranças significativas
que me faz ter saudade de um tempo que nunca mais terei igual.
fico feliz por ter algum tempo coincidido e por ter dividido um mesmo mundo que ela. ainda bem que nos encontramos e nos cativamos. é bom pensar que vivi tudo isso. é o que vale e o que nos faz dar importância a nossa existência.

Pan Box disse...

Ou então bebemos no mesmo bar. HAHAHAHAHA.



Obrigada pela visita.

Anônimo disse...

Eu penso que se tivesse, o céu seria o mesmo por caes e homens, e besouros e formigas. E mesmo se nao tivesse, talvéz a unica coisa que fica é o amor dado e recebido aqui, sobre nossa terra.
Sarabi vive em quem ama-a de verdade.
Isso parece pouco, mas olhando bem, é todo.