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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

paratodos, n. 8




ou: a (des)economia dos transportes públicos
um exercício econômicoulipiano, com soluções possíveis, mas implícitas.
(para M.S.)
Problema 1

Dado que é noite e Mariazinha (M) saiu sozinha da aula de economia, são-lhe apresentadas algumas possibilidades de trajetórias até sua casa:
o prédio do curso, na esquina da Rio Branco com a avenida Presidente Vargas, permitia que
1) M se deslocasse pela mesma calçada, à direita, onde esperaria o ônibus que chamaremos de A em frente ao CCBB (menos de 50m), que chamaremos de ponto de ônibus a;
2) atravessar a rua e pegar A num ponto b, à esquerda (cerca de 200 m), sendo que A faria a trajetória de a para b até chegar a d (o ponto em frente à sua casa). 1 e 2 tinham os mesmos custos de ônibus, lembrando que nos dois tratava-se de A (ou A', A'', qualquer variação de A, desde que A fosse de b,a até d). Considere-se que a e b representariam dois pontos sobre uma mesma reta, sendo ambos localizados na Avenida Presidente Vargas.

M predispunha-se a gastar R$ 2,20, tarifa regular dos ônibus que circulam na Zona Centro-Sul do Rio de Janeiro. Não cogitou, portanto, o metrô, apesar de estar com cartão carregado (o que geraria uma ilusória economia dos 2,20 líquidos em sua mão, e -2,80 no seu cartão pré-pago do metrô). Ir até o metrô representaria um deslocamento de cerca de 400 m e M não acredita que o conforto de um metropolitano valha a pena de um gasto maior de energia de suas pernas fatigadas, sendo o tempo considerado elemento desprezível nesse momento, em que todas as trajetórias operam fora do rush. Havia ainda a possibilidade de deslocar-se até o ponto c (trajetória c-d diferente de a,b-d), na Rio Branco, mais populosa de pessoas que esperavam o ônibus, mas era a mesma distância até o metrô.
O custo que M levou em conta foi um custo social: ao mesmo tempo em que um grupo atravessava a rua em direção de b, outro grupo preparava-se para dormir pelas calçadas próximas de a. M não queria admitir que fazia uma opção medrosa, mas lembrou da vez de um quase assalto ali mesmo. Um grupo X aproximava-se de M+2 amigos, mas um ônibus B surgiu na hora H no ponto a, sendo 2 os que viram X se aproximando de maneira suspeita e empurraram M para B (sendo B diferente de A e M+2 com apenas dinheiro para 1 ônibus, os 3 pularam a roleta, o que até hoje é lembrado com sorriso aventureiro por todos os 3).

Mesmo que X não tivesse trajetória até M+2 naquele tempo, e mesmo que as n pessoas que dormem pela Vargas e Rio Branco fossem diferente de X, M segue o grupo que atravessa a Rio Branco até b, por precaução, por preconceito. De qualquer forma, chovia, e M tinha uma demanda inflexível por um ônibus e segurança, tendo aceitado o primeiro que apareceu, mesmo sendo esse a 2,50 e com a climatização exagerada a essa hora H' da noite com a chuva etc.

Problema 2

Considerando que ir e vir são demandas praticamente essenciais e direitos adquiridos, todos os meios de transporte das mais diversas zonas no interior do município do Rio de Janeiro e de sua área metropolitana podem ser tratados como bens necessários, vide a malha urbana que necessita de reformas devido ao inchaço do uso desses transportes. Apesar desses bens, públicos, pertencerem a firmas privadas, provavelmente pelo objetivo tácito de quebra do monopólio estatal sobre a gestão dos transportes urbanos, cada fluxo entre essas zonas é gerido por determinados grupos monopolistas (excluindo-se de nossas considerações os transportes de uso particular, um desvio da regra monopolista que, na verdade, a suplementa, mas isso é outra conta).

Se M precisa ir de d a SG (sua cidade natal), depende unicamente de C, ônibus da empresa C, que domina esse mercado RJ-SG.
Houve um tempo em que, sendo SG-d seu trajeto habitual e o valor alto desse percurso sendo às vezes superior ao seu salário de professora do Estado, a solução para essa situação é o que a economia chamaria de queda da demanda. M matava muitas aulas quando precisava apenas estudar no Rio - a educação, afinal, torna-se uma demanda elástica quando seus custos aumentam.

O transporte alternativo é praticamente inexistente no fator preço, não havendo uma disputa de mercado que envolva esse fator, ou seja, alternativas. A briga pela demanda não apresenta vantagens economicamente verificáveis para o consumidor obrigado a percorrer o mesmo trajeto, nem o tempo é um fator relevante. Evidentemente, com emprego no Rio, M preferiu reduzir o tempo gastos no transporte e seu valor, fixando-se na selvagem cidade grande, transferindo, assim, seus gastos de transporte para o mercado imobiliário.

O que ocorre, de fato, é que o mercado de transportes, sem controle ostensivo do governo, tornou-se um mercado monopolista para a grande maioria da população. Quem não pode pagar ônibus, peso morto para os cofres dessas empresas, recorre a outras alternativas, ou melhor, a possibilidades, dependendo da proximidade. Bicicletas ou caminhadas, enquanto para alguns torna-se luxo relacionado a bem estar, para outros é o único meio de transporte. Para outros, cuja trajetória não é simplesmente a-d, resta o não-ir, ou o ir-e-ficar-por-lá, seja-onde-der.

(Estamos excluindo a deseconomia que a poluição e o estresse dos transportes a motor produzem no meio urbano, apenas levando em conta a necessidade de se deslocar quotidianamente para trabalho/educação)

Desta forma, pode-se retomar o exemplo das n pessoas que moram na rua, sabendo-se que grande parte trabalha nessa mesma área = os excluídos dos transportes urbanos.

Lembrando que o trajeto SG-RJ-SG custa em média 12 reais (se você pega apenas 2 ônibus ), analisaremos nos próximos capítulos como ainda não acreditamos que, finalmente, haverá um bilhete único ligando zona metropolitana e a cidade do Rio, com valor inferior a 10 reais.


Foto: adesivo trazido da França por uma tia, há uns dez anos atrás: zero euro, zero fraude, gratuidade dos transportes.

2 comentários:

bpdias disse...

Legal =) Parece que a Mariazinha se deparou com o problema do caixeiro viajante ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_do_caixeiro_viajante )

OÓCIO disse...

Que bacana, essa moça é mesmo mesmo uma oulipiana. Pena que esteja tão tão distante, pra trocarmos figurinhas. Parabéns.