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quinta-feira, 25 de outubro de 2007

sobre a defesa do aborto - algumas obviedades

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Nosso governador defendeu, hoje, o aborto como prática de redução da criminalidade. Está lá, primeira página do globo: "A rocinha é uma fábrica de marginais".

Pensei logo em duas coisas:

1. Na França, onde o aborto é legalizado, tem acontecido um decréscimo do número de abortos entre meninas. Sinto muito, Cabral, este não é um método seguro de diminuição de natalidade.

2. A gente sabe que as Fábricas de Marginais S.A. se localizam ao sul da cidade. Quem fabrica é quem põe à margem, certo?

O que se espera da legalização do aborto é uma opção pela vida dessas meninas que morrem, em abortos mal feitos. Sou totalmente a favor. Porque luto pela vida humana. Agora, se Cabral ainda acredita em Malthus, que ele opte pelo genocídio. O que não está longe de acontecer, visto algumas medidas do seu governo. Ok, aumento de 4% para a educação, depois de 11 anos. Gritamos aleluia? E, bem, os hospitais públicos não devem estar muito longe da qualidade de uma clínica ilegal de aborto a que essas meninas da Rocinha recorrem. Garantirão a qualidade de vida dessas meninas que não têm dinheiro, né?
(não, senhores, eu não rio. Não tem graça).

Um conto de fadas:
Era uma vez três meninas "difíceis", 13, 12, 14 anos. Uma parou a professora no corredor dia desses, desesperada, para perguntar pra ela qual o risco dela estar grávida, depois que um garoto ejaculou em sua perna. A outra, sua amiga, riu da cara assustada da professora, quando esta não conhecia os nomes das posições sexuais que enumerava. A terceira bate em outras garotas na rua e completa o grupo, ainda na sétima série.
A última escreveu uma cartinha agradecendo à professora pela descoberta da Ilíada. As quatro têm conversado sempre sobre as novas descobertas feitas na biblioteca. E começaram a conversar com suas próprias mães sobre os livros e sobre os medos e sobre os sonhos. A mãe da segunda a levou ao médico. Mãe e filha nunca tinham discutido o assunto antes.
Nos últimos meses, as meninas estão estudando, estão se apaixonando pela leitura e pela escrita, e querem lutar pelos seus sonhos. A terceira já terminou A Odisséia e já avança nos primeiros capítulos da Tempestade.

Tenho orgulho de dizer que essa professora é minha mãe, que continua nas trincheiras da educação pública, enquanto eu pedi exoneração, há um ano atrás, quando optei por um salário maior ao que eu ganhava. Eram 431 reais

2 parênteses:
(1. Era professora de primeira à quarta, para adultos, em início de carreira. Minha turma tinha meninas de todas as idades que levavam seus filhos às aulas e me perguntavam quando eu ia ter os meus.)
(2. Na Folha de São Paulo, desse fim de semana, o Rio aparecia em sexto lugar como um dos maiores salários para professor no Brasil!!!!! Então isso é geral, meus senhores?).

Minha mãe me contou essa história tem alguns dias. Ela está recolhendo as histórias das meninas da escola onde trabalha – onde também estudei – para compor um livro. Ela é contra o aborto e acredita na educação como forma de transformar o que vê. E me disse que tudo começa com um diálogo, do respeito ao outro. A cartinha foi o primeiro dos depoimentos que ela recebeu. A autora comenta ainda que está parando de fumar, e conta um pouco do que já disse acima.


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2 comentários:

Clara Gomes disse...

professor é uma profissão de resistência!
sou fã.

sebastião edson macedo disse...

maria,
adorei, com toda a força e a ênfase do gosto por esse verbo já tão gasto - adorar -, este post. destaque para a história ao meio tempo, e a versatilidade com que coloca as coisas em linha.
que bom que tenho uma amiga assim.

estou iniciando um blog de intervenção tb. ainda estou criando carga nos nervos para ver o que postar, e logo logo vou querer intervenções tuas por lá.

é isso. feliz de ter resolvido visitar teu blogue. força!

bjos do seu amigo
tião.