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domingo, 23 de novembro de 2008

#descolagem

[Enquanto escrevo, converso pelo Gtalk com o namorado, penso clicando em uma das várias abas abertas no Chrome, passo os olhos pelo jornal jogado à minha frente. Problemas, o tempo, as coisas acompanharam as horas que se passaram enquanto escrevia]

Aos dezoito anos, começava meu primeiro trabalho como professora. Havia terminado o segundo grau um ano antes e passado em concurso do Estado. Turma pequena, ensino de jovens e adultos. Nível de segunda série ou, mais tarde, primeiro ano do segundo ciclo ou algo parecido. Cada aluno possuía uma idade, um conhecimento, um modo de aprender diferente e não havia livro do aluno, nem programa. Não havia aprendido a trabalhar com essa situação, e esse foi só o primeiro de meus fracassos. A frustração de não conseguir ensinar, de não saber trabalhar com uma turma (nem precisa ser tão) heterogênea geraram uma grande culpa pela minha pouca experiência e uma extrema insatisfação com toda aquela situação. Como não havia livros, não sabia bem ao certo o programa.

Não que não soubesse a matéria. Conhecia muito bem as teorias, minha pontuação no concurso premiou minhas leituras das teorias de Vigotsky, Piaget. E muito Paulo Freire, também. Mas não conhecia na prática, ainda, as metodologias que aplicavam essas teorias. Na verdade, desconhecia totalmente as práticas. E meu trabalho como professora do Estado continuou solitário.


Manhã de sexta, havia terminado de escrever o artigo que integra o texto acima, sobre ensino e tecnologia. Descansava um pouco antes de ir para o trabalho. Então, @clarinhagomes manda para mim um email sobre o tal do #descolagem. Uma dessas coisas que me faz pensar que há outros solitários por aí, insatisfeitos com o sistema escolar, e embarquei na mesma hora. 

[Além de dar aula de francês, trabalho em um "centro de autoformação", uma sala multimídia com recursos didáticos em que a pessoa pode tentar estudar sozinha. Não é algo do tipo "te vira aí", é um trabalho série que envolve a criação, a seleção e adaptação de exercícios em séries que facilitem o auto-aprendizado, de maneira indutiva, construtivista. Entre outras coisas, temos uma plataforma intranet - um site em que vários exercícios estão divididos por módulos (que lindo, nós estamos em primeiro lugar no google)]. 


A NAVE, uma escola-modelo no uso das novas tecnologias na educação, é um espaço interessantíssimo. Um trabalho bonito, mesmo. Como um trabalho de design dedicado ao futurismo, o auditório, belíssimo, mas tem o único problema de ser programado para o homo webicus, i.e., os invertebrados que se equilibram sobre os enormes pufes vermelhos com seus ultramodernos tamagochis. Uma família habitaria sob aqueles pufes e, como a idéia é intereação, um pé desconhecido e nádegas amigas dividiram o assento comigo, minha bolsa e meu antiquado caderninho. 

O clima era de euforia. A platéia era de jovens, visivelmente online, mais on impossível. O "conceito" do debate era que poderíamos participar - desconferência? - via email, sms ou twitter [1]. 

A primeira palestrante falou da importância da quebra de paradigmas. A escola, como todos sabem, está morta. Viva a escola. Que escola? Fora com o professor centralizador! Wiii! Fora o conhecimento enciclopedista ! Wii! Fora com os espaços fechados! Wiii! Fora com as séries e os currículos! Wiiii! Viva a internet e o computador! Wii! [2]


Mas o que colocamos no lugar? Entusiasta das novas tecnologias, ela sabe que, no futuro, sua neta saberá o que foi a II Guerra pela uiquepédia, pelo gugou. Mas da onde se cria o conhecimento que se encontra ali?

Paulo Blikstein, professor de Stanford, foi o segundo palestrante. Parecendo um gerente de banco (cf. @clarinhagomes; ibidem), Blikstein apresentou seu projeto com crianças - brasileiras - de escolas públicas. Preocupado em fazer delas pessoas que reflitam - sem impôr a elas o verbo pensar no imperativo -, Blikstein elaborou projetos a partir de pesquisa feita com a comunidade onde as crianças viviam. Em um dos exemplos apresentados, as crianças criaram um modelo de vulcão (usando ferro de passar, panela de pressão...). Não uma simples maquete. Levaram mais de um ano desenhando o modelo, desenvolvendo, fazendo testes. Não preciso lembrar que, através desse projeto, as crianças devem ter aprendido mecânica, matemática, engenharia, termodinâmica - coisas que eu não sei. Pela experimentação. Blikstein guardou o portfólio dos alunos, e as crianças também criaram os seus "gráficos de motivação". Para mim, é um exemplo excelente do que é avaliação formativa e construção do conhecimento, trabalho com projetos, a utilização das variadas inteligências aplicadas, a transversalidade... É possível!

Blikstein lembrou que esse tipo de trabalho é mais árduo ainda do que um professor tradicional. E é fato. Também é, como ele disse, um trabalho que precisa ser bem remunerado e bem formado. Ele sabia muito bem do que estava falando e é alguém que faz.

Em seguida, após a catarse com o grupo Lens Kraftone, fomos pegos de surpresa pelo verborrágico Luli@radfahrer. Passamos do gerente de banco para o locutor de rádio. Ágil - demais - Luli discorreu longamente sobre o problema do professor que desconhece a linguagem digital, que acaba sendo visto como obsoleto por seus alunos. Perfeitamente inteligível para uma platéia de pessoas que perguntam umas às outras "quem é você" esperando ouvir algo como "@kamiquase", mas anacrônico para uma provável platéia de professores que ainda usam cheque para pagar as contas no mercado. 

Sim, anacrônico pensar que é preciso seguir em frente, acompanhar essa "evolução", em um tempo em que sabemos que a história não segue linhas retas. Wiiiiii, era o grito em prol do proveito da linguagem internética, quando o que se deve pensar em aproveitar as velhas tecnologias, também. Como aprender o que é árvore sem vê-las? É um trabalho open-source, usando as suas palavras, de conjunto. Aliás, ele falou muita coisa interessante. É preciso, sim, formar o professor, mas não apenas nessa linguagem, mas precisamos de professores que saibam do que o colega ao lado faz para fazer disso um trabalho coeso. Blikstein havia insistido no pensamento computacional como ferramenta. Ali havia a insistência da internet como linguagem. Não discordo de que seja uma linguagem, mas não acredito no imperativo de uma sociedade conectada, já que tantas Histórias circulam em nossa sociedade também tão plural. 

Após seu encantador discurso, seguiram-se as perguntas. Uma professora, usando um linguajar técnico, foi brutalmente cortada pelo showman. Ora, onde está aquela idéia de debate, de trocas? Onde está o professor que vai aprender com o aluno? Era sobre o papel do livro nisso tudo. "Não entendi nada do que você falou". Ela repetiu. "Mete tudo junto. Alguém mais quer perguntar? Próximo!". 


Em um outro seminário, semanas atrás, conheci o Portal do Professor, do MEC. Uma francesinha voluntária na embaixada, que cuida do excelente site Francoclic, veio nos dizer que o MEC tem esse site, em que um professor pode publicar seus planos de aula e receber comentários de outros, que podem também editá-lo. Um sistema interessantíssimo de colaboração. Pedi a palavra e disse para colegas e professores da UFF, UFRJ, UERJ o quanto isso seria interessante para seus alunos aprenderem a PREPARAR AULAS. O que não é fácil e é extremamente necessário. 

Finalmente, não saí solitária dali. @prill, @clarinhagomes, e minha irmã que não tem twitter dormimos e amanhecemos trocando experiências sobre educação, ensino e as expectativas de quem ainda sonha com a mudança nesse sistema. Acompanhávamos pela net o pós#descolagem: blogueiros anunciavam a satisfação com as excelentes palestras. 

Percebemos, na nossa retrospectiva, uma certa frustração pela falta do debate, mais ainda de um debate acompanhado do fazer, e com quem já faz. Saberes do como faz. E em desconferências, como lembraram as meninas: na NAVE ideal, os conferencistas recebiam perguntas da platéia e via twitter. Mas não houve alteração, como se sonhava, do papel da Autoridade Sua Majestade o Conferencista. 

Aguardando a @prill (e quem quiser) rebater por aqui ou em qualquer lugar da www e precisando ler o email que o @rafaelfilos enviou para a organização do evento. Assistindo via webtv, ele percebeu outros pontos a criticar.  Open source é a palavra...



[1] Trata-se de uma grande mesa de bar onde bêbados histéricos falam sozinhos. Às vezes alguém ouve e responde. Segundo a @prill, é uma brincadeira de corda, em que todos ficam contando 1, 2, 3... esperando a vez de entrar e pular 1, 2, 3... podendo cair, sair etc..  Sobre comentários inconvenientes dirigidos a neandertais não utilizadores desta "obra máxima" do progresso tecnológico, leiam aqui.

[2] Uma escola que valorize o livre pensamento e a livre escolha dos alunos puniria um professor que publica poemas em seu blog?

7 comentários:

Sérgio F. Lima disse...

Olá!

[mode chato on]
Você poderia colocar um sobre no blogue, não descobri o nome do meu/minha interlocutora?
[mode chato off]

Achei seu relato/análise do descolagem muito legal, preciso e sensível as contradições ocorridas.

o radfharer é ótimo, mas a cortada na professora foi sintomática! A falade que só depende do professor a mudança revela uma ignorância básica de como é a super-estrutura da escola..

E concordo muito contigo que a formação deste novo professor deve ser feita de modo descentralizado e em serviço. Conectado a outros professores, mas sobretudo ao seu mundo local.

São grandes desafios, o germe das soluções já estão no ar, mas é preciso aglutinar os váriso esforços!


abração

MC disse...

Não foi chato, é só mania de pseudo-poeta inventando pseudo-nome, o MC. Mas minha identidade não está escondida, o perfil do blogs estraga a brincadeira (Maria Clara da Silva Ramos Carneiro, prazer).

Seu blog é interessantíssimo, acredito que é uma excelente forma de alcançar o aluno sem se deixar levar por essa euforia internética. Realmente, o uso inteligente da rede. Fiquei realmente feliz em encontrá-lo.
Aliás, a "ejaculação precoce" do twitter (mesmo sendo usuária, estou em pleno acordo com você) e a linguagem acaba se perdendo na superficialidade das respostas curtas, sintéticas. Sem aprofundar o conhecimento. Eu escrevo "pelos cotovelos", talvez, mas acredito que a produção do conhecimento sempre envolverá isso, essa reescritura, e a experiência.

Outro sintoma: não sei se você percebeu, mas ninguém se deu ao trabalho de desprogramar o protetor de tela e essa ferramenta, alheia aos discursos, entrava em modo de de espera. É ou não uma bela metáfora do professor que quer abusar dos recursos interativos sem se preocupar com os efeitos e do que se busca com tanta parafernália?

Roney disse...

Oi Maria! Geralmente quando meus comentários ficam muito grandes eu crio um post e faço o tal do trackback. Não vou fazer isso para concentrar o debate aqui e no post do Sérgio pois acho que são mesas mais adequadas que o meu blog: é aqui que as pessoas de verdade entrarão ;-)

Vou falar tudo ao contrário do que acredito porque acho que em grande medida vocês estão certos!

Apesar de não ser um jovem (tenho 41) me coloco entre eles do ponto de vista da cibercultura e sou um entusiasta do microblogging como caldo primordial para surgimento de idéias (memes) que podem evoluir ou não.

Por outro lado a Internet é uma grande baboseira! As pessoas em geral copiam e colam, quem cria conhecimento não está (ou raramente está) nela pois não tem tempo para ficar adminstrando a catarata "niagaresca" de informações inúteis, imprecisas ou mesmo maliciosas.

A Internet trás mais problemas do que soluções nesse momento e se apresenta antes como um entretenimento mesquinho (fofocas no Orkut e "zuações" no Messenger) do que ferramenta da sociedade da informação e muito menos instrumento da sociedade do conhecimento que nem chegou a colocar de fora suas manguinhas!

No meio disso está o professor com a tarefa de ensinar ou ajudar seus alunos a aprender alguma coisa! Tem que competir com problemas administrativos e políticos que nem desconfio (não sou professor, mas consultor em gestão do conhecimento e algo que poderia ser definido como "encarnação virtual") e ainda precisa engolir ou levantar o punho contra a arrogância dos arautos da comunicação sem fronteiras entre as urls da Nuvem.

Algaravia! E o dia-a-dia do mestre que precisa lidar com o aluno da periferia que não vai estudar no dia do tiroteio?

Estou tentando me colocar no lugar do professor, mas sou um destes seres virtuais que se embebeda com as teorias dos memes de Dawkins e Blackmore e acreditam que o futuro inevitável é um em que existir apenas em forma de carbono é insuficiente e que precisamos existir também online (preferencialmente em blogs ou a evolução deles) e nossos devaneios casuais possam ser capturados em futuros twitters.

Nessa história toda, fazendo uma auto-crítica, creio que o papel de vocês professores e do Blikstein (de quem não gostei a princípio por pura idiotice minha) é o mais importante!

Nunca haverá o amanhã com que nós, os moderninhos virtuais, sonhamos se não formos capazes de lidar com o aqui e agora que vcs precisam transformar diariamente e sem o trabalho real de gente como o Blikstein que faz AGORA um pouco do que será possível lá no futuro distante.

Nosso erro, dos moderninhos @s, é achar que o futuro se materializará magicamente se desprezarmos os emissores de cheques que fazem anotações de palestras em blocos de papel.

Pronto, escrevi verborragicamente, é bem possível que tenha falado alguma besteira (sem falar em erros medonhos de Português), mas espero não ter sido repetitivo ou incompreensível! :-)

Eu gostaria muito de conhecer melhor o universo dos professores e estudantes. Estou inclusive decidido a fazer algumas palestras gratuitas em escolas. Tem um rascunho (um trabalho em andamento) aqui: http://moourl.com/aboutblank

rafael disse...

Oi Maria Clara

Pena descobrir com pouco atraso teu texto, mas de modo algum menos honrado pela curiosidade sobre meu email enviado a equipe do #descolagem. A seguir, segue ele na integra:

"Tenho percebido demasiada ênfase dos palestrantes na figura do professor, como se esse fosse o maior vilão da tecnologia na educação. Essa me parece uma visão míope, visto que, a educação não é feita e não depende unicamente do professor, mas sim, esse faz parte e é fruto de toda uma complexa estrutura educacional, que começa já nas políticas públicas. Desse modo, ao invés de falar do professor, não seria correto levar a discussão para o âmbito do sistema educacional, valendo-se das políticas públicas, formação de professores, filosofias e métodos educacionais, entre outros temas? Se o professor não tem apoio da estrutura que o abarca, de nada adianta jogar sobre suas costas e cobrar dele atitudes que não estão ao seu alcance. Certamente, os quarenta alunos de uma sala de aula estarão muito a frente da escola e do professor se as estruturas de ensino permanecerem antigas."

Infelizmente, na hora eles lerem apenas o meu twitt, no qual eu dizia "#descolagem: não estou entendendo pq tanta culpa jogada sobre os professores. escola não é só o professor."

Deixo mais uma vez o registro do sorriso pela citação =)

MC disse...

Moços, o Sérgio disse muito bem, "vamos aglutinar os germes das soluções"... Não só por aqui, mas pelo trabalho em sala de aula. Pela conquista do outro, do colega. É a eles que temos que nos dirigir, e com muito tato, chamar para conversas, discutir práticas. No meu caso, quando nós encontramos alguma atividade interessante, todos os colegas trocam, temos a oportunidade de perguntar uns aos outros. As trocas devem começar das bases, mesmo.

Bom ter encontrado com o Roney, no bar Getúlio, dia desses. As trocas de pessoas para pessoas são as mais importantes...

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