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sexta-feira, 3 de abril de 2009

bibish

creio que essa rigidez de meus ombros é meu corpo já virando coisa. nem lembrava mais como se escrevia. já tinha esquecido qual era o meu blog.
essa semana, a doce bibish mumbu, escritora congolesa, esteve no meu trabalho (sempre lugar da negação da vida, independente de gostos e desgostos). de onde me esqueço da escritura, ela nos pediu para escrever.

depois, ela bordou nossos textos uns nos outros e ainda emprestou o resultado a outras vozes para lê-los. e a gente se lembrava da memória do outro que se alinhavava com a nossa como se fosse um tecido só. ouvindo falar da gente como se a gente nem fosse mais.

ama a memória do outro como a tua própria.

enquanto não recebo o texto completo, desfaço em português meus deveres desses 3 dias


I

Lembro que as primeiras eram em linhas dublas: quando começava a escrever, davam-me espaços muito pequenos. As linhas eram dobradas para que se treinasse caligrafia, mas eu não entendia, no início.
Então eu me forçava a colocar abc dentro de meio-centímetro. Sem dar-me conta, obrigava-me a não ultrapassar espaços: exercício de ser minúscula, até ilegível.
Não era o mesmo para as palavras: não me lembro, meus pais me dizem. Mas não tenho lembrança desse tatibitate.
Lembro de quando ensinavam-me a ler, na escola. Guardava entre os lábios o mesmo frágil rumor das folhas discretamente preenchidas. Disso, me lembro.

II

Parece que amanhã será mais difícil que hoje. Dizem que é preciso ser austero; parece que o humor não é engraçado. Acho que vai piorar.

Dizem, se ouvi bem, que a palavra de ordem é « a vida não é fácil, façamos o menos possível, não vai durar ». Parece que é impossível mudar o percurso (é a inércia, dizem) do movimento dos acontecimentos desse mundo. Dizem que não vale a pena cuidar das feridas, vamos reabri-las arranhando a pele apenas curada. Dizem que é a natureza do mundo. Parece que sim, mas nunca se sabe.


III

Sonho de um espaço dissolvido em tinta: papel manchado de letras desconhecidas. Não sei em que cores eu sonho. Sonho de uma letra mestiça, onde um prefixo estrangeiro possa se casar com um radical da minha lingua.
Que língua? Sonho de nossas línguas enlaçadas. Que línguas? Sonho de uma escritura virgem de significados. De uma linguagem bem branca onde se possa marcá-la de sentidos a bel prazer. Sonho também de torcer as palavras até mudar a ordem regente das frases.

Um comentário:

Thiago Florencio disse...

Oi Clara, lindo o seu texto. Foi uma experiência única, né! Também adorei Bibish e vamos manter essa troca poética que ela nos proporcionou.

Bjs

Thiago