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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

My English Teacher

Há menos de um ano, voltei a estudar inglês. Fazia mais de dez que não estudava a língua, e precisava aprender a escrever. E destraumatizar.


Depois que terminei meu curso de inglês, engatei no francês. Anos mais tarde, quando me chamaram de supetão pra fazer uma tradução consecutiva do francês pro inglês numa pequena conferência do FSM (2005), bloqueei, travei, na frente de umas trinta pessoas. Desde então, qualquer encontro com um americano era na base dos sorrisos. Quando tentava, me envergonhava, não saía mais nada. 


Rachel Dana me ajudou muito nisso. Na hora e meia de aulas, que eu sempre extrapolava, ela me deixava falar. Minha analista. Depois de uma nota ruim, ela me disse: "Bem feito, Maria Clara, você tem que aprender que você não é perfeita". 


E ainda me contava suas histórias. Ensinou-me sobre sinagogas e Hanukkah, sobre sua família e seu sobrenome inglês, que chegou vindo das arábias, pelo pai de seu marido. 


A cup of coffee? Two spoons? E ela até comprou uma garrafinha térmica de água: tenho o hábito de beber sempre e muito enquanto falo e ficava sem graça de pedir mais água todo o tempo. Why you didn't ask? 


Minha nota no TOEFL foi de 89, após dez anos de inglês enferrujado. Doris, sua filha, também professora de inglês, me ajudou a treinar pra prova, mas disse que eu já estava preparada na única aula que tivemos. 


Eu deveria ter voltado a estudar no final de janeiro, mas precisava me organizar, e acabei não ligando de volta para confirmar. Escrevi para ela ontem, começava assim:



Rachel, desculpe ter desaparecido.
e terminava:
tenho muitas saudades das aulas e de você.  How are you? 
Best wishes

Só que eu não sabia: ela se fora na semana passada. Dessas coisas, fatalidades. E aí, aquela coisa, agora só me vêm lágrimas e aquela frase, de outro judeu, na cabeça: O mundo se foi, é preciso que eu te leve. 

Tome esse texto como pedrinhas aguardando teu retorno. A vida perdeu uma qualidade. 


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

nouvelle vague

Anos 1970, um autêntico café francês, Rive Gauche. Você é um Jean-Paul Belmondo e uma Anna Karina se aproxima de você. Sobe um blues acompanhado pelo fog de cigarrilhas, cigarros; você, gauche, ensaia a canção batendo ligeiramente os dedos enquanto ela chega cada vez mais perto. Je suis amoureux d'une cigarette
Você sorri, ela também, e a alça do vestido vermelho-Jessica-Rabbit escorrega ligeiramente do ombro esquerdo.

Elle a la rondeur d`un sein qu`on mord ou qu`on tète
Você repassa mentalmente teu francês; você encomenda mais dois drinques ao bartender, pronto para oferecer à moça.


Quand au bout de la langue, je la lèche elle tangue 
Ela se inclina sobre o balcão, ao teu lado, empina o cigarro em tua direção e manda a frase fatal:


Tens fogo?


Você diz que não fuma e foge com os dois copos para longe dali. Ora essa. Quem ela pensa que iria enganar com tanto clichê?


Je suis amoureux d'une cigarette...



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

b.o.

Homem branco, de aproximadamente trinta anos, foi atropelado por topic branca, dirigida por um homem branco, de aproximadamente trinta anos. O motorista prestou socorro à vítima, mantendo-se no lugar. A vítima atravessou o sinal aberto e o motorista rodava em alta velocidade. A vítima sofreu ferimentos graves e encontra-se ainda no local, aguardando atendimento.

campos

era briluz 
Bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronn tuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk!
Pasta-e-paletó nas alturas, ovarão girando sua própria fortuna no ar, queda-gritante: "Desgraçado!"
Vivainda.

descrições

Era uma quinta-feira aparentemente comum. O céu jazia azul, como fazia há semanas, fora uma chuva forte que havia caído duas noites antes. O termômetro na esquina marcava mentirosos 38 graus, quando na verdade se sabia que a sensação térmica e os ânimos estavam muito mais elevados: véspera de vésperas de carnaval, essa última quinta-feira guardava a ânsia - compartilhada por todos - pela pausa do feriado. A pressa de que o dia acabasse era mais que um lugar comum; há muito instituíra-se essa pressa uma característica nacional. Mesmo para quem não gostasse de carnaval. As amplas avenidas entrecruzavam-se, o asfalto quente apresentava miragens líquidas a poucos metros. Grupos engravatados atravessavam as ruas, moças de saltinho e saias elegantes. Imagem típica do Castelo, com seus advogados e executivos perambulando sob o sol, como se fossem imunes àquela temperatura. Um sujeito, bem alinhado, pasta, paletó, gravata, pretendia atravessar uma das avenidas, perpendicular ao caminho que esta observadora seguia, pela calçada. Tivesse esperado mais, talvez. Uma topic branca corria para cruzar a mesma rua, e nem sujeito nem carro poderiam coabitar o mesmo espaço, a topic lançava o homem para o espaço e ele caía exatamente ao lado dessa. Gente corria agora, em direções diferentes, uns afastavam os olhos da cena, outros precipitavam-se sobre o homem e sobre o carro. Per fortuna, ele vivia.

haikai

dia de fogo 
homem de asas
planando leve sobre o asfalto

twitter

kamiquase acaba de ver homem ser atropelado por topic no castelo. girou no ar, mas sobreviveu.

notas


- sol das 13 horas
- o barulho
- homem dá mortal sobre a topic
- eu correndo pra banca de jornal pra escapar àquela visão
- o grito: desgraçado!
- homem sobre o asfalto e as pessoas que o rodeiam.
- já chamaram a samu.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

do diário de luto de RB

Dois anos depois do meu mestrado sobre o Barthes, lançam o diário que ele manteve após a morte de sua mãe. Entre notas esparsas sobre sua dor e do desejo de escrever sua obra, encontro essa notinha aqui, de 10 de agosto de 1978:


Espantado pelo fato de que Jesus amava Lázaro e que antes de ressuscitá-lo, ele chora (João, 11).
"Senhor, eis que está enfermo aquele que tu amas."
"Quando, pois, ouviu que estava enfermo, ficou ainda dois dias no lugar onde se achava". 
"Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do sono."
Jesus [...] comoveu-se em espírito, e perturbou-se, etc."
11, 34-35 "Senhor, vem e vê". Jesus chorou.
Disseram então os judeus: Vede como o amava.
Perturbando-se novamente.... (tradução via Biblegateway)



Frappé par ceci que Jésus aimait Lazare et qu’avant de le ressusciter, il pleure (jean, 11).
« Seigneur, celui que tu aimes est malade. »
« Quand il apprit que celui-ci était malade, il resta encore deux jours à l’endroit où il se trouvait. »
« Notre ami Lazare repose ; je vais aller le réveiller. » [le ressusciter]
... « Jésus frémit intérieurement. Troublé, etc. »
11, 35. « Seigneur, viens et vois. » Jésus pleura.
Les Juifs dirent alors : « Comme il l’aimait ! »
Frémissant de nouveau en lui-même.... (BARTHES, Journal de deuil. Paris : Seuil, 2009, p. 198)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

propaganda familiar

Dois físicos muito loucos: a irmã e o cunhado.

leio seu futuro em troca de aulas de desenho

Bem, é mentira que preciso de aulas de desenho. Precisaria de prática, trabalho, e sei que não é muito o meu forte a paciência dedicada a tal serviço. Nem pra escrever no blog, minhas velhas ânsias ensaístico-poéticas eu tenho rotina.

Aí, quando quero fazer uma tirinha, gosto de recorrer às facilidades do mundo moderno, recorte e colagem. Além de me evitar o trabalho mais brutal, me dá grande prazer em manipular coisas alheias e truques tecnológicos.

Só pra brincar, saíram essas tirinhas aí embaixo.


No mais, prefiro ler os bons > http://www.netvibes.com/kamiquase#quadrinhos

domingo, 7 de fevereiro de 2010

paula e bebeto

Aí aquela coisa, os dois se encontram, toda a faísca, namoro nascente. E nada, só o andar lado a lado, conversa à voz baixa. Pelas ruas, o não poder andar de mãos dadas.

- Mas é como andar de bicicletas, disse ela. Quanto mais gente andar assim por aí, mais visíveis ficamos, e ai de quem ousar passar por cima, quando tomarmos as ruas.


Todos juntos somos fortes, não há nada pra temer.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

clichê

- Conserto.
- Não entendi. Pode repetir?
- Conserto!
- Não entendi. Pode repetir?
- Reparo telefone.
- Entendi! Você quer informações sobre a sua conta!
- Não!
- ... Caso esteja correto, diga sim,
- ... Não!!!!!!
- ... ou diga não caso não seja esse o seu problema.
- Não, caralho.
- Entendi! O senhor precisa de assistência técnica!