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domingo, 31 de janeiro de 2010

Le Petit Prince de Sfar

Recortava páginas de revistas velhas pra preparar aulas com material "autêntico" e me deparo com essas páginas numa Télérama da vida. Trechos do Petit Prince, do Joann Sfar (que, aliás, dirigiu o filme sobre Serge Gainsbourg, a partir de BD escrita também por ele).
Legal isso, não?




terça-feira, 19 de janeiro de 2010

paratodos, n. 8




ou: a (des)economia dos transportes públicos
um exercício econômicoulipiano, com soluções possíveis, mas implícitas.
(para M.S.)
Problema 1

Dado que é noite e Mariazinha (M) saiu sozinha da aula de economia, são-lhe apresentadas algumas possibilidades de trajetórias até sua casa:
o prédio do curso, na esquina da Rio Branco com a avenida Presidente Vargas, permitia que
1) M se deslocasse pela mesma calçada, à direita, onde esperaria o ônibus que chamaremos de A em frente ao CCBB (menos de 50m), que chamaremos de ponto de ônibus a;
2) atravessar a rua e pegar A num ponto b, à esquerda (cerca de 200 m), sendo que A faria a trajetória de a para b até chegar a d (o ponto em frente à sua casa). 1 e 2 tinham os mesmos custos de ônibus, lembrando que nos dois tratava-se de A (ou A', A'', qualquer variação de A, desde que A fosse de b,a até d). Considere-se que a e b representariam dois pontos sobre uma mesma reta, sendo ambos localizados na Avenida Presidente Vargas.

M predispunha-se a gastar R$ 2,20, tarifa regular dos ônibus que circulam na Zona Centro-Sul do Rio de Janeiro. Não cogitou, portanto, o metrô, apesar de estar com cartão carregado (o que geraria uma ilusória economia dos 2,20 líquidos em sua mão, e -2,80 no seu cartão pré-pago do metrô). Ir até o metrô representaria um deslocamento de cerca de 400 m e M não acredita que o conforto de um metropolitano valha a pena de um gasto maior de energia de suas pernas fatigadas, sendo o tempo considerado elemento desprezível nesse momento, em que todas as trajetórias operam fora do rush. Havia ainda a possibilidade de deslocar-se até o ponto c (trajetória c-d diferente de a,b-d), na Rio Branco, mais populosa de pessoas que esperavam o ônibus, mas era a mesma distância até o metrô.
O custo que M levou em conta foi um custo social: ao mesmo tempo em que um grupo atravessava a rua em direção de b, outro grupo preparava-se para dormir pelas calçadas próximas de a. M não queria admitir que fazia uma opção medrosa, mas lembrou da vez de um quase assalto ali mesmo. Um grupo X aproximava-se de M+2 amigos, mas um ônibus B surgiu na hora H no ponto a, sendo 2 os que viram X se aproximando de maneira suspeita e empurraram M para B (sendo B diferente de A e M+2 com apenas dinheiro para 1 ônibus, os 3 pularam a roleta, o que até hoje é lembrado com sorriso aventureiro por todos os 3).

Mesmo que X não tivesse trajetória até M+2 naquele tempo, e mesmo que as n pessoas que dormem pela Vargas e Rio Branco fossem diferente de X, M segue o grupo que atravessa a Rio Branco até b, por precaução, por preconceito. De qualquer forma, chovia, e M tinha uma demanda inflexível por um ônibus e segurança, tendo aceitado o primeiro que apareceu, mesmo sendo esse a 2,50 e com a climatização exagerada a essa hora H' da noite com a chuva etc.

Problema 2

Considerando que ir e vir são demandas praticamente essenciais e direitos adquiridos, todos os meios de transporte das mais diversas zonas no interior do município do Rio de Janeiro e de sua área metropolitana podem ser tratados como bens necessários, vide a malha urbana que necessita de reformas devido ao inchaço do uso desses transportes. Apesar desses bens, públicos, pertencerem a firmas privadas, provavelmente pelo objetivo tácito de quebra do monopólio estatal sobre a gestão dos transportes urbanos, cada fluxo entre essas zonas é gerido por determinados grupos monopolistas (excluindo-se de nossas considerações os transportes de uso particular, um desvio da regra monopolista que, na verdade, a suplementa, mas isso é outra conta).

Se M precisa ir de d a SG (sua cidade natal), depende unicamente de C, ônibus da empresa C, que domina esse mercado RJ-SG.
Houve um tempo em que, sendo SG-d seu trajeto habitual e o valor alto desse percurso sendo às vezes superior ao seu salário de professora do Estado, a solução para essa situação é o que a economia chamaria de queda da demanda. M matava muitas aulas quando precisava apenas estudar no Rio - a educação, afinal, torna-se uma demanda elástica quando seus custos aumentam.

O transporte alternativo é praticamente inexistente no fator preço, não havendo uma disputa de mercado que envolva esse fator, ou seja, alternativas. A briga pela demanda não apresenta vantagens economicamente verificáveis para o consumidor obrigado a percorrer o mesmo trajeto, nem o tempo é um fator relevante. Evidentemente, com emprego no Rio, M preferiu reduzir o tempo gastos no transporte e seu valor, fixando-se na selvagem cidade grande, transferindo, assim, seus gastos de transporte para o mercado imobiliário.

O que ocorre, de fato, é que o mercado de transportes, sem controle ostensivo do governo, tornou-se um mercado monopolista para a grande maioria da população. Quem não pode pagar ônibus, peso morto para os cofres dessas empresas, recorre a outras alternativas, ou melhor, a possibilidades, dependendo da proximidade. Bicicletas ou caminhadas, enquanto para alguns torna-se luxo relacionado a bem estar, para outros é o único meio de transporte. Para outros, cuja trajetória não é simplesmente a-d, resta o não-ir, ou o ir-e-ficar-por-lá, seja-onde-der.

(Estamos excluindo a deseconomia que a poluição e o estresse dos transportes a motor produzem no meio urbano, apenas levando em conta a necessidade de se deslocar quotidianamente para trabalho/educação)

Desta forma, pode-se retomar o exemplo das n pessoas que moram na rua, sabendo-se que grande parte trabalha nessa mesma área = os excluídos dos transportes urbanos.

Lembrando que o trajeto SG-RJ-SG custa em média 12 reais (se você pega apenas 2 ônibus ), analisaremos nos próximos capítulos como ainda não acreditamos que, finalmente, haverá um bilhete único ligando zona metropolitana e a cidade do Rio, com valor inferior a 10 reais.


Foto: adesivo trazido da França por uma tia, há uns dez anos atrás: zero euro, zero fraude, gratuidade dos transportes.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

guarulhos


"go and catch a falling star"
(John Donne)

foto by DVD, enquanto passava por onze horas de espera do seu voo (GIG-GRU-FCO-MIL)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

sessão de cartas da Marie Claire - ERRAMOS

Num lapso, escrevi cinco em vez de seis na legenda da foto da Rua Silva Ramos. Mamãe me liga às 8h da manhã pra me avisar.

- Você me acordou só por isso?

Ao despertar, já está lá o email:


from: Márcia Carneiro
Thu, Jan 14, 2010 at 08:02 AM
Re: Rua Silva Ramos

Maria!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! SEIS FILHOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Fernando trouxe de Manaus a placa!
Rua Silva Ramos também tem na Tijuca
Silva Ramos está na Academia Brasileira de Letras

from: MC
Thu, Jan 14, 2010 at 09:50 AM
Re:Re: Rua Silva Ramos

Eu não tenho nenhum compromisso com a verdade. A historiadora é você.


from: Márcia Carneiro
Thu, Jan 14, 2010 at 09:50 AM
Re:Re:Re: Rua Silva Ramos

Mas sabe contar...

from: MC
Thu, Jan 14, 2010 at 09:52 AM
Re:Re:Re:Re: Rua Silva Ramos

Já corrigi, mas não é verdade. Fiz letras, não números


from: Márcia Carneiro
Thu, Jan 14, 2010 at 09:53 AM
Re:Re:Re:Re:Re: Rua Silva Ramos

Mas fez o primário... E pode colocar o dedinho em cada pessoa da foto e contar: 1,2,3,4,5 eeeeeeeeeeeeeeeeeee 6!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Conto do Pato

Quem escreve é José Ricardo da Silva Ramos, o Zé Ricardo*.

Essa quem me contou foi o Pato, meu velho amigo de rua.

“Jorge Irizipela era o jogador terror dos campos de futebol várzeas do morro. Tinha apenas uma função quando atuava: aterrorizar todos os agentes desportivos. Alto, forte, costas largas, bigodes mexicanos e cara de mau, o Jorge era temido por todos pela sua exuberância corporal. O povo das redondezas dizia que Jorge sempre foi o sujeito mais respeitado no futebol do morro, tanto pelos adversários como pelos parceiros.

Sempre depois de ter cumprido uma longa jornada de trabalho carregando centenas de sacos de 50 kilos de farinha e fubá, o Jorge entrava em campo, mais bêbado do que uma gambá, e aí o jogo se moldava segundo o seu jeito de jogar. Ele mesmo dava a saída e conduzia a bola até o seu destino final: o gol. Os adversários ao seu entorno fingiam ser driblados, simulavam confrontos, davam na pinta uma certa oposição, mas ai daquele que tocasse no Jorge ou roubasse o seu precioso objeto que levaria até o gol: a bola. Se por acaso acontecesse tal tragédia, o coitado autor de tal ato, já tinha o seu destino traçado: cemitério ou hospital. O goleiro adversário também era muito solicitado pelo Jorge, pois cabia-lhe a tarefa de fazer toda a pose defensiva, pois o Jorge não gostava de fazer gol fácil.

Desse modo, o Jorge aproveitando-se do seu prestígio corporal mandava no jogo, e o morro como um todo arrumava-se de acordo com as leis que o Jorge estabelecia quando jogava. Encarando todo o público com o seu típico mau humor, estipulava o tempo, o número de jogadores e o placar dos jogos.

Um dia, um tal de Cláudio, um dos parentes do Cabrita apareceu no campo do morro. O garoto metido a jogar bem logo conseguiu uma vaga no time adversário da equipe do Jorge. Ele estreante no morro não sabia do contrato entre os jogadores quando o marombeiro trabalhador do Fubá Granfino estava presente. E, logo depois que o Jorge iniciou o jogo, o rapaz mascarado a jogador habilidoso, toma-lhe a bola dos seus pés, corre todo o terreno do time oponente e faz um gol e ainda sai tirando marra de Maradona. Notamos que, depois desse fato, o céu enegreceu-se, as nuvens surgiram pesadas anunciando uma tempestade, todo o cenário do morro aquietou-se e os seres vivos e até os mortos calaram-se diante de tal proeza, da extrema petulância do pobre rapaz. A galera presente abaixou as suas cabeças, colocou as mãos nas testas e começou a cochichar de orelha em orelha com a língua entre os dentes:

__ Temos um enterro amanhã, rapaziada. O velório de um colega que apenas pegou a preciosa bola do Jorge. Este rapaz não vai durar mais do que cinco minutos. Ele é louco! Ele está perdido! Quem vai anunciar a morte do garoto a sua família? Mais uma vítima do Jorge! Por que não avisaram ao menino que aqui o Jorge é a lei? Meu Deus, você viu o que ele fez?

O Jorge mesmo se encarregou de pegar a bola dentro do gol. Colocou-a debaixo do braço e a levou até o meio do campo. Sentimos o seu semblante alterado, meio perturbado pela audácia do jovem estreante. Todos se voltaram para a fala do Jorge quando fixou os seus olhos naquele que havia cometido tal barbaridade:

___ Você machucou o Jorge. compenetradamente disse o Jorge apontando para um dos seus pés descalço.

___ Que isso Jorge? Eu tire a bola legal! Respondeu o Cláudio.

___ Você machucou o Jorge. Isso não se faz. Calmamente reafirmou o Jorge.

___ Que isso Jorge? A galera viu. Eu tô jogando legal, Jorge. Retrucava Cláudio.

___ A rapaziada viu que você machucou o Jorge, e isso não se faz. Balançava a cabeça o Jorge, de um lado para o outro, contrariado com audácia do pobre rapaz.

A galera já se preparava, apreensiva com o socorro emergente do moço. Este, já alertado pela turma fugia do domínio territorial do Jorge no campo. O Jorge, por sua vez, continuou jogando sozinho a partida. A multidão do morro esperava ansiosamente o trágico desfecho fúnebre até que, após um gol do Jorge, o goleiro arremessa a bola na lateral direita para o Cláudio, quando surgiu rependinamente quem? no mesmo espaço do campo? Quem? O Jorge.

___ É agora! Previu a galera já impaciente...

E foi. O Jorge dá uma banda no Cláudio que o joga a mais de cinco metros de altura. Essa banda, que impressionou mais uma vez toda a platéia deu-lhe a oportunidade de rever o Jorge nos seus tempos de glória, quando ele divertia a galera com as suas brutalidades. O que dava o peso da graça ao jogo lá no morro. Sobre o que aconteceu com o Cláudio, o morro teve que se contentar apenas com o hospital.

___ O Jorge quando não mata pelo menos desinfeta. Esse não tira mais onda no morro. Disse um amigo nosso, o Frei de Barro, que, alegre, estava indo visitar o amigo Cláudio no hospital....”

*Professor de Educação Física da UFRRJ. Os jogos e a linguagem deles, assim como a comunhão linguística que eles proporcionam sempre fizeram parte de suas pasquisas, das quais participo desde pequena, como cobaia, redatora, leitora.

Rua Silva Ramos




Fiz a rubrica Rua Silva Ramos em homenagem ao quintal que ainda guarda minha infância, a casa da minha vó, dos meus pais, onde cresci. A rua, na verdade, era a Rua General Antonio Rodrigues ou Rua da Padaria Nota Dez, referência antiga, nem a padaria existe mais, do general sei menos. Mas Silva Ramos é o sobrenome de minha mãe e seus cinco irmãos, enfants terribles, adultos professores, pesquisadores e curiosos e que adoram contar histórias.

Fernando, o pior de todos (que fugiu a primeira vez de casa aos três anos), encontrou, uma vez, não lembro mais aonde, uma rua que se chamava Silva Ramos. Não lembro mais se encontrou primeiro a rua, ou a placa, ou fez a placa. Prefiro dizer que ele pegou, assim, uma placa, em uma rua Silva Ramos. E trouxe pra casa. A placa está lá, ainda, na entrada lateral da casa de meus avós. Rua Silva Ramos. O jardim da minha vó, é a rua Silva Ramos, o quintal, pra sempre enorme, infinito, será sempre pra gente uma rua larga, a Rua Silva Ramos. Nossa rua, de nossas histórias, de nossa infância. Também ao pé do muro (tantas vezes derrubado por carros sem freio) e as ruas que saem pelo portão, o morro do Menino de Deus, cujo pé dá na nossa calçada, e a cidade que continua em volta, São Gonçalo.

Foi portanto meu tio Zé quem deu a ideia de reunir nossas contações, a primeira história que ele envia segue, acima.


Foto: Em ambas, estão os seis filhos de Maria Gelsera da Silva Ramos e Antonio de Pádua Ramos, na mesma ordem, só que espelhada.